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domingo, 7 de junho de 2026

Independenciano na Guerra do Paraguai - Prof. Ricardo Assis

Independenciano na Guerra do Paraguai - imagem feita por IA.

 

A Guerra do Paraguai, ocorrida entre os anos de 1864 e 1870, foi o maior conflito armado da história da América do Sul. De um lado estava o Paraguai; do outro, Brasil, Argentina e Uruguai, que formaram a Tríplice Aliança. Embora os grandes acontecimentos desse período sejam amplamente conhecidos pela história nacional, algumas narrativas locais revelam como o conflito também alcançou os rincões do sertão cearense, deixando marcas na memória das comunidades.

Em Independência, uma fascinante história atravessou gerações por meio de relatos orais, registros em um antigo livro e vestígios encontrados em uma antiga fazenda da zona rural. Segundo a tradição, um morador da região do interior de Independência, foi convocado para servir durante a Guerra do Paraguai. Viúvo, ele vivia com suas filhas, tendo grande afeição pela mais velha, Maria dos Anjos. Antes de partir para o conflito, chamou a filha e entregou-lhe a chave de seu quarto, recomendando que ninguém abrisse o aposento até seu retorno.

Os meses passaram e, já próximo de completar um ano, o sertanejo foi dispensado do serviço militar e regressou para casa. Sua chegada foi recebida com grande festa pelos familiares e vizinhos. Tiros de bacamarte, ronqueiras e espingardas ecoaram pelos sertões, anunciando a volta daquele que havia partido para a guerra.

Ansiosa para receber o pai da melhor forma possível, Maria dos Anjos decidiu abrir o quarto para realizar uma limpeza. Ao entrar, deparou-se com uma cena inesperada, várias moedas de ouro estavam espalhadas pelo chão, entre os tijolos do piso. Surpresa, recolheu as moedas para entregá-las ao pai quando ele chegasse. Ao relatar o ocorrido, ouviu uma repreensão por não ter seguido sua orientação. Em seguida, o pai revelou o segredo: as moedas marcavam os locais onde, sob determinados tijolos, estava enterrada toda a sua reserva de ouro.

Mais do que uma curiosa história familiar, esse relato demonstra a riqueza das tradições e memórias preservadas em Independência. Narrativas como essa ajudam a compreender aspectos da vida sertaneja no século XIX, as repercussões de acontecimentos nacionais em nossa região e a importância da memória oral na preservação da história local.

O município de Independência possui um vasto patrimônio histórico e cultural, formado não apenas por documentos e construções antigas, mas também pelas histórias transmitidas de geração em geração. Resgatar e divulgar essas narrativas é uma forma de valorizar nossa identidade e manter viva a memória daqueles que ajudaram a construir a história do município.

Prof. Ricardo Assis

 

domingo, 24 de maio de 2026

Independência: locais históricos podem virar rotas turísticas - Prof. Ricardo Assis

Casa de pedra do séc. XIX

 

O município de Independência possui uma história rica, marcada pela cultura, pela fé, pelas tradições sertanejas e pela participação em importantes acontecimentos do Brasil. Durante a Semana do Museu, foi reforçada a importância de preservar essa memória por meio da criação de um museu municipal, um espaço que poderá valorizar a identidade local, incentivar a educação e fortalecer o turismo histórico e cultural.

A história de Independência está diretamente ligada à formação do sertão nordestino e ao desenvolvimento do Ceará. O próprio nome do município desperta curiosidade e remete à relação com os acontecimentos históricos do Brasil. Além disso, a cidade possui registros importantes da cultura sertaneja, antigas fazendas, prédios históricos e tradições que atravessam gerações.

Outro ponto de destaque é o patrimônio arqueológico existente no município. Estudos apontam que Independência possui sítios arqueológicos com arte rupestre, revelando vestígios dos povos antigos que habitaram a região. Esse patrimônio representa uma grande oportunidade para pesquisas, educação e turismo científico.

A história do município também está ligada ao ciclo do gado e à antiga rota dos sertões. A região fazia parte do caminho utilizado pelos vaqueiros que conduziam o gado entre o Piauí e os sertões cearenses, fortalecendo a economia e contribuindo para a formação cultural dos Inhamuns. A figura do vaqueiro, símbolo da resistência sertaneja, continua viva na memória e nas tradições locais.

Sítios arqueológicos com arte rupestre 

Independência também carrega marcas da religiosidade popular. Igrejas centenárias, devoções tradicionais e histórias ligadas à fé ajudam a fortalecer o turismo religioso, que movimenta a economia e valoriza a cultura local. Fé, tradição e desenvolvimento caminham juntos quando a história é preservada e compartilhada com as novas gerações.

A cultura popular é outro patrimônio importante do município. Reisado, rabeca, artesanato e manifestações culturais fazem parte da identidade do povo independenciano. Essas tradições representam não apenas a memória cultural, mas também oportunidades para o empreendedorismo e para o fortalecimento da economia criativa.

Além da história e da cultura, Independência possui potencial para o turismo de aventura e ecológico, com locais que podem atrair visitantes interessados em trilhas, paisagens naturais, rapel e turismo rural. A integração entre patrimônio histórico, natureza e cultura pode transformar o município em uma referência turística regional.

Fazendas centenárias que fizeram parte da história local

A criação de um museu em Independência representa mais do que guardar objetos antigos. Significa preservar histórias, fortalecer a educação, incentivar pesquisas, promover o turismo e gerar desenvolvimento para a cidade. Um museu é um espaço de memória, identidade e valorização do povo.

Preservar a história local é garantir que as futuras gerações conheçam suas origens e compreendam a importância de sua terra na construção da história regional e nacional. Independência possui um patrimônio valioso que merece ser reconhecido, protegido e apresentado ao mundo.

 Prof. Ricardo Assis




domingo, 19 de abril de 2026

Independência: Enigma de Domingos José da Costa, o português esquecido. - Prof. Ricardo Assis

Lapide do português Domingos José da Costa

 Transcrição:

Aqui jaz
DOMINGOS JOSÉ DA COSTA

Nascido em 16 de Outubro de 1802 no
Reino de Portugal e falleceu 25 de
Março de 1862 na Villa da Independência, Pro
vincia do Piauhy. Tributo de amizade
de sua ESPOSA
D. Francisca Valente da Costa.


Em minhas pesquisas, deparei-me com uma descoberta intrigante, a lápide de um português que viveu e morreu em Independência, marcada pelo tempo e pelo silêncio da história. Apesar da clareza do nome gravado na pedra, não foi possível localizar qualquer documento oficial ou relato oral que revelasse detalhes sobre sua vida. Nenhum registro em arquivos, nenhuma memória preservada pelas gerações, apenas a evidência concreta de que ele esteve aque em Independência, existiu e deixou sua última marca no município.

Diante desse vazio histórico, surge uma hipótese que instiga ainda mais a curiosidade, a possibilidade de que esse português tenha chegado à região junto com o fundador de Independência, o Capitão José Ferreira de Melo. Se assim foi, sua trajetória pode ter se entrelaçado com os primeiros passos da formação de nosso município, permanecendo, no entanto, esquecida pelos registros formais. Um personagem oculto nas origens do município, cuja história talvez ainda esteja dispersa em fragmentos à espera de ser reconstruída.

Há nomes que resistem ao tempo como ecos gravados na pedra. Na imagem, uma lápide antiga, marcada por rachaduras e pelo silêncio dos anos, guarda a inscrição de um homem, Domingos José da Costa. Um português. Um estrangeiro que, em algum momento do século XIX, atravessou o oceano e fincou seu destino na então Vila de Independência, na Província do Piauí. Veio de longe — “Reino de Portugal”, diz a inscrição — e aqui terminou sua jornada em 25 de março de 1862. Mas quem era ele, de fato?

Não há registros claros. Nenhum documento oficial, nenhuma narrativa oral preservada, nenhum arquivo que conte sua história. Apenas a pedra, que insiste em não esquecer. Teria sido comerciante? Fazendeiro? Viajante em busca de terras e oportunidades? Ou alguém fugindo de um passado que o mar ajudou a apagar? Sua vida permanece envolta em sombras, como tantas outras que ajudaram a formar o interior nordestino.

E há ainda uma pergunta que atravessa gerações: será que Domingos José da Costa deixou descendentes em Independência? Talvez seu sangue corra, silencioso, nas veias de famílias que hoje desconhecem essa origem. Um sobrenome perdido, um traço herdado, uma história nunca contada à mesa.

A lápide rachada não é apenas um marco de morte, é um convite ao mistério. Um chamado à memória. Porque, às vezes, o que não foi registrado nos livros ainda vive, escondido, na terra, nos nomes e nas histórias que ainda esperam ser descobertas. 

Prof. Ricardo Assis

domingo, 5 de abril de 2026

Porque cobrir as imagens na Quaresma?

a Igreja adota um costume antigo: cobrir as imagens sagradas com tecido roxo, sinal de penitência, recolhimento e preparação espiritual.


Este é um costume muito antigo na história da Igreja. Remonta ao século sétimo indicando um luto antecipado pela morte do Senhor. As imagens são cobertas com um tecido roxo. É uma prática facultativa. O crucifixo é descoberto na sexta-feira da paixão na adoração da Santa Cruz, e os santos na Vigília Pascal. Trata-se de um ato exterior que estimula um ato interior. A atitude da penitência representa pela cor roxa, o arrependimento, a conversão, a mudança de vida.

Quando se cobre as imagens a igreja nos ensina que estamos em um tempo diferente. Além das imagens também tira se as flores do altar, silencia um pouco os instrumentos, suprime o, aleluia não se canta o glória, e as celebrações são mais sóbrias convidando as pessoas a também cobrirem-se, mas espiritualmente para fazerem um exame de consciência, examinarem se, e pedirem de modo especial para mudarem de caminho. Para tal mudança é preciso o arrependimento, o perdão dos pecados, o bom propósito de não pecar mais, e nesta época em especial Jesus nos ajuda a obter este perdão, pois a primeira palavra que Ele falou no alto da cruz foi uma palavra de perdão: “Pai, perdoai-lhes eles não sabem o que fazem.” (Lucas 23,34).



As imagens permanecem cobertas até momentos significativos da Semana Santa: o crucifixo é revelado na Sexta-feira da Paixão, e os santos, na Vigília Pascal.

Cobrir as imagens para simbolizar o período de penitência que estamos vivendo. Na sua paixão foi Jesus que nos cobriu com o manto todo especial, não roxo, mas vermelho era o manto de seu sangue, cobria a multidão dos pecados da humanidade para a modificar por dentro. Por tanto ele espera uma mudança de nosso coração. As imagens em alguns lugares agora estão cobertas pedindo de cada um de nós uma verdadeira conversão interior nesta quaresma.

 

terça-feira, 24 de março de 2026

Preta Tia Simoa e o silenciamento de heroínas negras na História do Brasil

Preta Tia Simoa, liderança grevista heroína da luta contra a escravidão no Brasil..

A História Afro-brasileira foi secundarizada nos livros e currículos escolares, limitando-se a conteúdos sobre escravidão e datas comemorativas. Isto é resultado do viés racista e patriarcal na historiografia burguesa, que protagoniza majoritariamente homens brancos europeus. É crucial trazer à tona as histórias das mulheres negras que foram essenciais nas lutas populares, destacando seus sujeitos, realizações e memórias para além da escravização. Conheça a história de Preta Tia Simoa.

Os relatos sobre a imprescindível participação das mulheres na história da luta do povo são raros e insuficientes. Uma dessas mulheres é destaque na luta do povo cearense. Ela era conhecida como Preta Tia Simoa, uma mulher negra liberta que desempenhou um papel crucial no evento conhecido na história do Ceará como a “Greve dos Jangadeiros”.

Ao lado de seu marido José Luiz Napoleão, Preta Simoa liderou uma significativa mobilização em janeiro de 1881, com o objetivo de impedir o embarque de escravos no porto de Fortaleza. Seu nome oficial (se é que teve algum registro) e seu local de nascimento permanecem desconhecidos.

Durante os preparativos da greve, Preta Tia Simoa convocou os moradores dos arredores do Porto do Mucuripe, organizou reuniões nos morros e angariou apoio para os grevistas. A área circundante era habitada principalmente por pescadores e jangadeiros, muitos deles pardos e negros libertos ou alforriados. Além de se dedicarem à pesca, os jangadeiros do porto também eram responsáveis por carregar mercadorias da praia para os navios. As vilas ao redor, de então e agora, eram áreas de intensa atividade comercial, principalmente relacionada à pesca. Os trabalhadores enfrentavam discriminação, abusos do governo, tributos e violência contra os libertos que eram coagidos a transportar escravos para a província.

Ao participar desse movimento, Preta Simoa também despertou a consciência daqueles que já estavam livres, reconhecendo a necessidade de lutar pela liberdade de todos. Sem essa mobilização popular em massa, as greves de 1881 não teriam sido bem-sucedidas.

O movimento resistiu bravamente às severas repressões policiais. O 15º Batalhão do Exército recusou-se a intervir devido à determinação e coragem dos grevistas. A mobilização se refletiu nas eleições, resultando na eleição de um governador defensor da abolição, Sátiro Dias. A luta só cessou após a promulgação da lei, resultando em mais de 30 mil pessoas libertadas no Ceará.

Preta Simoa desempenhou um papel essencial na comunidade durante o movimento, apesar das dificuldades impostas pelo patriarcado. Teve que se libertar das amarras da prisão doméstica e do preconceito para lutar. No entanto, ela não se deixou intimidar. Infelizmente, não há registros sobre sua data de morte ou onde a líder negra da greve dos jangadeiros foi enterrada. Preta Tia Simoa é uma das várias figuras que sofreram com o silenciamento da história do povo negro.