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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Um lugar chamado Manchete - Flávio Paiva (O Povo)

Toinzinho (1921 – 2015) e Socorro plantando o baobá (imbondeiro) da Manchete. Foto: Flávio Paiva (15/11/2013).

Há lugares que não nos pertencem, mesmo que patrimonialmente sejam nossos. O Sítio Pelo Sinal I, em Independência, que meu pai chamou espirituosamente de Manchete, foi construído por ele e pela minha mãe ao longo de muitas décadas, enquanto ele cuidava de animais, e ela de flores. A casa, belamente vazada para a passagem espontânea dos ventos do sertão dos Inhamuns, foi projetada pelo meu irmão, com seu dom e técnica de criar ambientes agradáveis. 

Bem antes de fazer a viagem de volta em 2015, em uma boa morte aos 94 anos, meu pai Toinzinho me disse que estava guardando peças da sua labuta e da vida cotidiana daquele lugar para que um dia a casa viesse a ser um museu. Depois de uma década mantendo tudo funcionando, doando efetivamente metade da fazenda ao Manezinho e ao Lisboa, trabalhadores que o acompanharam por muitos dos seus últimos anos, e vendendo parte da propriedade para a sustentação da minha mãe, Socorro (88 anos), que desde então passou a morar em Fortaleza, estão criadas as condições para a realização dessa vontade. 

Assumi, com a confiança dos meus irmãos Paulo e Cynara, e com as bençãos da nossa mãe, a condução dos dez hectares rurais restantes, que tangenciam a zona urbana, para, no momento propício, dar sequência a esse sonho de presentear Independência com um parque de cultura e preservação ambiental. Como sou movido por ações de infância e cidadania orgânica, a minha contribuição se dará nesses campos de sentido. Essa é a ideia, considerando a intuição, os sentimentos e os impulsos imaginativos de quem brincou e desempenhou tarefas ali quando era apenas um terreno de plantar e de criar afastado da cidade. Do núcleo constituído pelo casal, não há mais ninguém morando em Independência. O que fundamenta essa decisão, além da visão e da história de conquistas do meu pai como referência na criação de ovinos e caprinos, é a existência de um modo de vida que une simplicidade comportamental e grandeza ontológica. Particularmente, sou muito grato à cidade onde nasci por ter sido educado em casa, na escola e nas ruas com tanto amor que, por onde ando, não deixo de dizer que sou de lá. Sem contar que ali também convivi com parte significativa das personagens das minhas literatura e música. 

 O próprio nome Manchete é um ícone semiótico presente nessa relação. Meu pai deu esse nome à fazenda após ouvir de mim que no jornalismo se chama a atenção para uma notícia importante dando-lhe destaque na capa de um jornal ou revista ou na abertura de um programa, de maneira curta, clara e impactante, para que o público se interesse em ler, ver e ouvir o conteúdo completo. À época, ele ainda tinha uma propriedade no Poço Comprido, no limite de Independência com Tauá, onde mantinha todo o rebanho. Como era pequeno o Sítio Pelo Sinal I, onde retinha o plantel de animais-modelo, ele nominou o lugar de Manchete, pois ali se encontravam as ‘chamadas’ que levavam compradores à criação no interior do município. 

A Manchete não seguiu qualquer padrão de agricultura e pecuária, apenas formou-se a partir da sabedoria prática dos nossos pais e de suas relações. 

Procuro manter esses vínculos com quem dá vida ao lugar. O Manezinho e o Lisboa, que hoje são donos das terras vizinhas desmembradas, mantêm a circulação de animais domésticos intra-propriedades, em uma parceria rural por princípio mutualista. Isso me parece ser uma maneira de respeitar e de renovar evidências do que meu pai conceituou de “Sistema”, um modo de inventar o mundo com satisfação.

 Fontes

 https://www.flaviopaiva.com.br/artigos/um-lugar-chamado-manchete/

 https://mais.opovo.com.br/colunistas/flavio-paiva/2026/01/26/um-lugar-chamado-manchete.html

domingo, 25 de janeiro de 2026

Independência se destaca na história do algodão e acompanha novo programa de revitalização no Ceará - Prof. Ricardo Assis

Carrada de algodão do distrito de Jandrangoeira - Independência.

 

O município de Independência teve papel relevante na produção de algodão no Ceará, especialmente durante o século XIX e grande parte do século XX, período em que a cotonicultura foi a principal cadeia produtiva do Estado. Localizada na região dos Inhamuns, a cidade figurou entre os maiores produtores da cultura, abastecendo outros municípios e a capital Fortaleza.

Na zona rural de Independência, diversas fazendas se dedicavam ao cultivo do algodão, que era concentrado na cooperativa instalada na sede do município para beneficiamento e revenda. A produção movimentava a economia local e garantia emprego e renda para muitas famílias. Caminhões carregados saíam regularmente do município com destino a Fortaleza e a outras cidades cearenses. A importância dessa atividade é simbolizada até hoje na bandeira de Independência, que traz um galho de algodão como representação de sua força econômica no passado.

Atualmente, a produção de algodão volta a ganhar destaque com o lançamento de um programa do Governo do Ceará voltado à revitalização da cultura. A iniciativa prevê, inicialmente, a distribuição gratuita de sementes de algodão em 18 municípios, com a meta de alcançar o plantio em aproximadamente 5 mil hectares. A estimativa é de geração de até 15 mil empregos, considerando uma média de dois a três postos de trabalho por hectare.

Segundo o governo estadual, o objetivo do programa é fortalecer a agricultura, estimular a economia rural e resgatar uma atividade historicamente importante para o Ceará. Para municípios como Independência, a proposta representa a possibilidade de retomada de uma cultura que marcou sua trajetória econômica e social, além de abrir novas perspectivas de desenvolvimento e geração de renda no campo.

Prof. Ricardo Assis

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A Seca dos Três Setes, dor e resistência no Ceará do século XIX - Prof. Ricardo Assis

Seca dos três setes

 

A história do Ceará é marcada por episódios de resistência diante das adversidades impostas pela natureza e pela negligência do poder público. Entre esses episódios, a Seca dos Três Setes (1877–1879) ocupa um lugar central na memória histórica e cultural do povo cearense, não apenas pela intensidade da tragédia, mas pelas profundas transformações sociais que provocou.

Os primeiros sinais do desastre surgiram ainda em 1876. Embora o início daquele ano tenha registrado chuvas nos primeiros meses, o restante foi dominado por uma estiagem severa. De junho a dezembro, o sertão permaneceu sem água. Em 1877, a situação agravou-se: janeiro trouxe apenas neblina e os meses seguintes apresentaram índices insignificantes de chuva. Ao perceberem a perda do inverno, os sertanejos, em março e abril, passaram a abandonar suas terras, iniciando um êxodo em massa rumo ao litoral.

Com a seca, o sertão entrou em colapso. O gado morreu por falta de aguadas, as lavouras desapareceram e as reservas de alimentos se esgotaram rapidamente. A fome tornou-se generalizada a partir do segundo semestre de 1877. Os auxílios governamentais, escassos e desorganizados, não alcançavam as regiões mais afetadas. Em um cenário de absoluta penúria, bens pessoais, animais e até terras passaram a ser trocados por pequenas quantidades de comida, revelando o desespero de quem lutava para sobreviver.

As poucas fontes de água existentes — açudes e poços cavados nos leitos dos rios — secaram completamente. Nem mesmo as famílias consideradas mais abastadas conseguiram resistir. Temendo o isolamento total e a falta de socorro, abandonaram fazendas, casas e rebanhos. O sertão, antes marcado pela vida e pelo trabalho, transformou-se em um espaço de abandono e silêncio, um verdadeiro deserto humano e social.

O governo provincial, despreparado para lidar com a crise, recusou-se inicialmente a enviar recursos ao interior, forçando a concentração populacional nas cidades litorâneas. Fortaleza, Aracati, Sobral, Granja e Camocim receberam milhares de retirantes em poucos meses. Sem infraestrutura para acolher tamanha população, essas cidades viram surgir acampamentos improvisados, pessoas vivendo ao relento e o aumento de doenças, violência e miséria. O que antes eram centros urbanos tranquilos tornou-se palco de sofrimento coletivo.

Em 1878, a esperança de um novo inverno reacendeu brevemente, mas logo foi frustrada. Entre janeiro e junho daquele ano, as chuvas foram insuficientes para reverter a seca. A última precipitação ocorreu em 26 de junho. Após isso, o céu permaneceu limpo e implacável. O abandono do sertão foi quase completo: vilas inteiras ficaram vazias. Somente com a mudança de governo e a atuação de Júlio de Albuquerque Barros (1878–1880) surgiram tentativas mais sistemáticas de socorro às populações remanescentes.

As consequências humanas foram devastadoras. Fazendas com centenas de cabeças de gado desapareceram. Famílias inteiras morreram pelas estradas, vítimas da fome e da sede. Muitas das que chegaram ao litoral estavam tão debilitadas que desfaleciam em praças e calçadas. Paralelamente, intensificou-se a migração forçada para outras províncias, como Amazonas, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Milhares de cearenses foram transportados em navios superlotados, em condições desumanas, ampliando o sofrimento para além das fronteiras do Ceará.

Entre o final de 1878 e meados de 1879, uma grave epidemia de varíola agravou ainda mais a tragédia. O número de mortes alcançou níveis alarmantes, especialmente em Fortaleza, que chegou a abrigar cerca de 180 mil pessoas. A falta de estrutura foi tamanha que muitos corpos permaneceram insepultos. A morte, a doença e o abandono tornaram-se parte do cotidiano da população.

A esperança de que 1879 encerrasse esse ciclo de dor foi novamente frustrada. Embora a seca já não tivesse o mesmo impacto no interior, completamente devastado, o foco voltou-se para os centros urbanos, onde se concentravam os retirantes e os esforços governamentais. A Seca dos Três Setes deixou marcas profundas na organização social, na economia e na cultura cearense.

Mais do que um evento climático, a Seca dos Três Setes é um símbolo da desigualdade, da ausência de políticas públicas eficazes e da força de um povo que, mesmo diante da fome, da doença e do abandono, encontrou meios de resistir. Preservar essa memória é fundamental para compreender o passado e refletir sobre os desafios que ainda persistem no presente.

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Entre a fé e o esquecimento, Santo popular - a memória de Manoel Cazé – Prof. Ricardo Assis

 

Local do túmulo do Manoel Cazé - Santo popular em Independência

Em um local silencioso de Independência, onde hoje o olhar encontra apenas o vazio, existiu um dia um lugar de devoção, respeito e fé popular. Ali repousava Manoel Cazé, também conhecido como Mané Galinha — um andarilho marcado pela vida, pelos problemas psicológicos e pela simplicidade extrema de quem sobrevivia da solidariedade do povo. Caminhava pelas ruas da cidade e pelas casas dos independencianos pedindo comida, carregando no corpo o cansaço e, na alma, um mistério que o tempo transformaria em devoção.

No dia 14 de junho de 1972, Manoel Cazé teve uma morte trágica e sofrida, atropelado por alguém alcoolizado. A brutalidade daquele fim chocou a cidade e marcou para sempre a memória coletiva. A partir dali sua figura humilde passou a ocupar um espaço diferente, deixou de ser apenas um andarilho conhecido para se tornar um santo popular, alguém a quem o povo recorria em oração, esperança e gratidão.

Durante muitos anos, no Dia de Finados, seu túmulo recebeu inúmeras visitas. Velas acesas, flores simples, promessas e agradecimentos revelavam uma fé construída não por decretos oficiais, mas pela experiência viva do povo. Seu túmulo tornou-se um símbolo silencioso da religiosidade popular Independenciana, um lugar onde a dor se transformava em fé e a fé em consolo.

Hoje, porém, esse símbolo não existe mais. O túmulo foi destruído. Não há vestígios, não há marcas, não há sequer uma placa que indique que ali, um dia, repousou alguém tão importante para a memória afetiva da cidade. Em nome do chamado “progresso”, o espaço foi apagado, como se nunca tivesse existido nada naquele terreno — apenas o chão nu e o silêncio.

Com a destruição do túmulo, perde-se mais do que um local físico, perde-se um pedaço da história do povo de Independência. A memória coletiva vai sendo, aos poucos, apagada, mesmo que a fé do povo continue inabalável. Porque a fé não depende de pedra, cimento ou cruz; ela sobrevive na lembrança, no testemunho e na gratidão daqueles que acreditam ter alcançado alguma graça por intercessão do santo popular.

O Túmulo de Manoel Cazé hoje vive apenas na memória do povo e nos relatos de quem acredita ter sido beneficiado por sua intercessão. Vive nas histórias contadas de geração em geração, na saudade e no respeito por uma figura simples que, mesmo em vida, pouco teve, mas que após a morte passou a representar esperança para muitos.

Apagar um túmulo não apaga uma história. Enquanto houver quem lembre, quem conte e quem creia, Manoel Cazé continuará existindo — não mais naquele terreno vazio, mas no coração e na fé do povo independenciano.

Prof. Ricardo Assis

 


domingo, 11 de janeiro de 2026

Aula de campo da turma de História de Independência em Crateús (2007) - Prof. Ricardo Assis

Turma de História de Independência (2007), aula de Campo.

 

No ano de 2007, a Turma de História de Independência viveu uma experiência que ultrapassou os limites da sala de aula e ficou marcada na memória de todos, uma aula de campo junto aos indígenas Tabajaras, no município de Crateús. A visita representou muito mais do que uma atividade escolar — foi um encontro direto com a história viva, com a cultura, os saberes e as tradições de um povo originário que ajudou a construir a identidade do nosso território.

Embora o tempo tenha apagado alguns detalhes — como o nome da disciplina específica ou de quem conduziu aquela atividade —, o que permanece vivo é o significado daquela aula. O contato direto com os Tabajaras permitiu aos alunos compreenderem a História para além dos livros, enxergando-a como algo pulsante, presente no cotidiano, nas práticas culturais, nos rituais, nas expressões e na resistência indígena.

A aula de campo foi um retrato fiel desse momento especial para os alunos, comunidade indígena, crianças, adultos e lideranças reunidos em um espaço simples, mas carregado de simbolismo. Um verdadeiro intercâmbio de conhecimentos, respeito e aprendizado mútuo.

Hoje, passados quase vinte anos, é motivo de orgulho saber que a maioria daquela turma se tornou excelentes professores de História. Educadores comprometidos com o ensino crítico, com a valorização da memória, da cultura local e, sobretudo, com a formação de novas gerações conscientes de sua identidade e de seu papel na sociedade.

Aquela aula de campo foi, sem dúvida, uma semente. Uma prova de que experiências vividas fora da sala de aula têm o poder de transformar trajetórias, despertar vocações e reafirmar que ensinar História é, acima de tudo, conectar pessoas, tempos e realidades. Uma excelente aula de campo — daquelas que o tempo não apaga.

Prof. Ricardo Assis

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

31 de dezembro de 2015: o dia em que a água venceu a seca em Independência – Prof. Ricardo Assis

Governado Camilo Santana na localidade do Jaburu



No apagar das luzes de 2015, quando o calendário se preparava para virar mais um ano, o município de Independência viveu um dos momentos mais marcantes de sua história recente. No dia 31 de dezembro de 2015, último dia do ano, a cidade recebeu a visita do então governador do Ceará, Camilo Santana, para a inauguração da Adutora de Montagem Rápida, uma obra aguardada com ansiedade por toda a população.

À época, Independência atravessava um período crítico de crise hídrica. A escassez de água afetava diretamente o cotidiano das famílias, o funcionamento dos serviços públicos e a economia local. Em meio às dificuldades impostas pela seca prolongada, a chegada da adutora representou mais do que uma obra de infraestrutura, simbolizou esperança, segurança e dignidade para os independencianos.


Inauguração foi realizada ao lado do Mercado Público

A adutora, com 27,6 quilômetros de extensão, passou a levar água do açude Jaburu II até a sede urbana do município, garantindo o abastecimento regular da cidade. O investimento, na ordem de R$ 7,4 milhões, foi fundamental para enfrentar os efeitos da estiagem e assegurar um direito básico à população: o acesso à água.

Naquele período, o município era administrado pelo prefeito Valterlin Coutinho, que acompanhou a inauguração ao lado de autoridades estaduais, lideranças locais e da comunidade. O ato solene marcou o encerramento de um ano difícil, mas também abriu caminho para um novo ciclo, com mais tranquilidade e perspectivas de desenvolvimento.

Com o passar do tempo, o 31 de dezembro de 2015 consolidou-se como uma data histórica para Independência. Um dia que entrou para a memória coletiva como o momento em que o poder público respondeu a um dos maiores desafios do sertão, a escassez d’água. Mais do que inaugurar uma adutora, aquele dia selou um capítulo importante da história do município, provando que, mesmo em meio às adversidades, é possível transformar realidades e garantir um futuro melhor para a população.

  

Governador Camilo Santana comentou em sua rede social

Prof. Ricardo Assis


 

domingo, 21 de dezembro de 2025

Já está à venda: A Saga do Sertão Livre - Prof. Ricardo Assis

A Saga do Sertão Livre mistura ficção com historiografia

 

É com grande alegria que anuncio que o livro A Saga do Sertão Livre, de minha autoria, já está oficialmente à venda. A obra foi publicada pelo Clube de Autores e já pode ser encontrada em diversas plataformas, facilitando o acesso dos leitores de todo o Brasil.

O livro está disponível para compra na Agbook, Amazon, Livrarias da Rua, Estante Virtual, Mercado Livre e Americanas, oferecendo diferentes opções para quem prefere adquirir sua leitura no formato físico ou por meio das grandes lojas virtuais.

A Saga do Sertão Livre mergulha nas histórias, lutas, tradições e personagens marcantes do sertão, retratando com sensibilidade e realismo a vida no interior nordestino, suas dificuldades, crenças, relações humanas e a força de um povo que resiste ao tempo e às adversidades.

Convido todos os leitores, amantes da literatura regional e da história do sertão, a conhecerem essa obra construída com dedicação, pesquisa e paixão. Seu apoio é fundamental para fortalecer a literatura independente e valorizar as narrativas que contam a nossa própria história.

Boa leitura! 📚✨

 Prof. Ricardo Assis

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Independência - 168 anos de história ignorados — um erro que precisa ser corrigido - Prof. Ricardo Assis



O município de Independência não tem 92 anos de emancipação. Essa narrativa, repetido ano após ano, não apenas distorce os fatos como também apaga parte significativa da trajetória histórica de uma terra marcada por lutas, tradições e raízes profundas. Na verdade, Independência possui 168 anos de fundação, e insistir em comemorar apenas 92 é reduzir mais da metade de sua história a um silêncio injustificável.

É fundamental destacar que a verdadeira data de fundação de Independência é 25 de julho de 1857, pelo Decreto Lei nº 436, quando oficialmente se estabeleceu o município. Ignorar essa data — e substituí-la indevidamente por 4 de dezembro — é um equívoco que compromete a seriedade com que tratamos nossa própria memória. Ao deslocar a origem de Independência para quase um século depois, cria-se uma versão simplificada e empobrecida de um passado que deveria ser celebrado em sua totalidade.

Celebrar o dia 4 de dezembro como marco de emancipação é um erro histórico que se perpetua, muitas vezes por desconhecimento, outras por falta de atenção aos registros oficiais e à memória coletiva. O problema vai além da data, é a mensagem que ela transmite. Ao reconhecer apenas 92 anos, abandona-se um passado que moldou o povo, a cultura e a identidade local. São décadas — para não dizer séculos — desperdiçadas em comemorações desatentas à verdadeira origem do município.

A história é um patrimônio tão valioso quanto qualquer monumento físico, e ignorá-la significa romper o elo entre o passado e o presente. Quando um município escolhe celebrar uma data errada, ele não só se engana, mas também compromete o aprendizado das novas gerações, que deixam de conhecer a verdadeira cronologia de seu lugar de pertencimento.

É preciso coragem e responsabilidade para retomar a narrativa correta. Reavaliar documentos, ajustar o calendário comemorativo e educar a população sobre a verdadeira história de Independência não é apenas um gesto de reparação, mas uma demonstração de respeito às gerações que construíram esse município muito antes de 1933.

Reconhecer que Independência tem 168 anos, e não 92, é devolver ao povo sua própria história — uma história que merece ser lembrada, celebrada e preservada com fidelidade.

 Prof. Ricardo Assis


 

sábado, 29 de novembro de 2025

Dois livros sobre o município de Independência foram entregues às bibliotecas e instituições do município – Prof. Ricardo Assis

Homem de Visão - autoria Prof. Ricardo Assis - 130 anos de 
permuta Piauí x Ceará - autoria Joaquim Augusto e Prof. Ricardo Assis

 

Nesta semana, as bibliotecas do município de Independência receberam oficialmente dois livros de autoria do Prof. Ricardo Assis, que passam a integrar o acervo de bibliotecas escolares, instituições culturais e espaços de leitura. As obras entregues foram “O Homem de Visão” (2013), biografia do ex-prefeito Joaquim Augusto Bezerra, e 130 anos da Permuta entre Piauí x Ceará” (2010), escrita em parceria com o próprio Joaquim Augusto Bezerra. Ambos os títulos representam importantes registros da memória histórica e política do município.

 

Ao todo, cada instituição recebeu dois exemplares, garantindo que estudantes, pesquisadores e a comunidade em geral tenham acesso facilitado ao conteúdo. Foram contempladas: Escola Abigail Antunes Marques, Escola Maria do Carmo, Escola José Ferreira, Escola Prof. Maria Júlia Fialho, Escola Dep. Jerônimo Alves de Araújo, Fundação Senhor Pires, ONG História Viva (Biblioteca Estação Leitura) e a Biblioteca Municipal.

 

As duas publicações são fundamentais para compreender aspectos marcantes da identidade de Independência. Enquanto O Homem de Visão resgata a trajetória de uma liderança política que marcou a história local, 130 anos da Permuta entre Piauí x Ceará revisita um dos episódios mais relevantes para a conformação territorial e cultural da região. A iniciativa reforça o compromisso com a preservação da história e o incentivo à leitura entre jovens e adultos do município.

 Prof. Ricardo Assis

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Memória escravos de Independência - vozes que os documentos não permitem silenciar - Prof. Ricardo Assis

Fonte: Ramssés de Souza Silva


Fragmento de documento de batizado de um filho de casal de escravos em Independência:

 "Aos trinta e um dias do mês de Agosto do ano de mil e setecentos e cinco, no acampamento (ou povoado) daquela Paróquia da Serra do Salitre (localidade), batizei solenemente com os Santos Óleos o Reverendo Padre Pascoal Coni ... (Linha muito confusa, menciona talvez a criança e os pais: filho de Damião e sua mulher Lourença...) ... e de sua Mulher Lourença, pelos Curadores de Izabel desta Freguesia (Paróquia), foram Padrinhos Manoel Peres Pinho e Dona Luzia Alves, e todos moradores nesta Paróquia. Deste ato fiz um registo que mandei extrair e assinei. O Vigário Victoriano Jacome d'Almeida."


A partir do documento histórico presente na imagem, abre-se uma janela profunda para a memória ancestral do município de Independência. As linhas antigas, escritas com tinta já desbotada, carregam mais do que simples registros religiosos ou administrativos, revelam vidas, trajetórias e presenças que, durante muito tempo, foram silenciadas pela narrativa oficial.

Esse fragmento é mais do que uma prova — é um marco que reafirma a presença de escravos no município de Independência, contrariando qualquer tentativa de negar a existência de escravizados no município. A própria escrita, mencionando nomes, relações familiares e condições de vida, indica que a população negra esteve inserida na formação social, econômica e cultural da região.

Locais como São José, Santa Luzia, Santa Cruz e tantas outras comunidades rurais de Independência, quando observados com atenção, revelam traços muito fortes de antigas comunidades quilombolas. A organização social, a permanência de sobrenomes, tradições culturais e a própria dinâmica de povoamento sugerem uma ancestralidade resistente, construída por pessoas que fugiram, enfrentaram e sobreviveram à escravidão. Embora sejam necessários estudos arqueológicos, historiográficos e antropológicos mais profundos, o pouco de documentação já acessível é suficiente para iluminar esse passado e reforçar a verdade que sempre esteve ali, Independência foi, sim, um território marcado pela presença negra e pela luta pela liberdade.

Reconhecer isso não é apenas um ato acadêmico — é um compromisso ético e político. A consciência negra nasce também desse entendimento, de valorizar, honrar e proteger a memória daqueles que foram fundamentais na construção da nossa identidade. Não há mais espaço para negacionismo, tampouco para narrativas que tentam apagar ou suavizar a violência da escravidão. Documentos como o da imagem são testemunhas incontestáveis de uma história que precisa ser contada com verdade, respeito e profundidade.

Que este registro inspire mais pesquisas, mais preservação e, sobretudo, mais consciência sobre a importância da presença de escravos na formação do município de Independência.

Prof. Ricardo Assis

 


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Saci está solto em Independência - Prof. Ricardo Assis



O Dia do Saci e o esquecimento das nossas raízes



 

Em 2010, o município de Independência deu um passo simbólico e corajoso ao instituir o Dia do Saci em 31 de outubro. Mais do que uma simples data comemorativa, essa lei é um convite à resistência cultural — uma tentativa de equilibrar o brilho importado do Halloween com a riqueza das nossas próprias lendas. Porém, passados mais de dez anos, é triste perceber que muitas escolas, públicas e privadas, ainda ignoram o verdadeiro sentido dessa data.

O Saci, travesso, sábio e profundamente brasileiro, deveria saltar pelos corredores escolares, pelas bibliotecas e pelas praças, espalhando curiosidade e orgulho pelo folclore nacional. Mas, em vez disso, o que se vê é a repetição acrítica de fantasias estrangeiras, enquanto o nosso imaginário popular se apaga pouco a pouco. O Dia do Saci não é contra o Halloween — é a favor de nós mesmos. É um chamado para lembrar que nossa cultura é viva, criativa e cheia de personagens que contam quem somos.

Lei Municipal nº 285, de 20 de abril de 2010, sancionada em Independência (CE)

Cabe às escolas, aos educadores e à sociedade reacender essa chama. Celebrar o Saci é reafirmar nossa identidade, valorizar o Brasil que existe nas histórias de fogueira, nos causos de avó e nas travessuras da imaginação. Ignorar essa lei é, de certa forma, permitir que o pó da indiferença cubra o brilho das nossas próprias raízes.

O Saci está solto em Independência — e que continue assim, lembrando a todos que preservar o folclore é preservar a alma do nosso povo e nossa cultural.

 Prof. Ricardo Assis

domingo, 19 de outubro de 2025

Rotas Turísticas, Religiosas e Culturais em Independência, um Caminho para o Futuro - Prof. Ricardo Assis

Vaqueiros, santos populares, cangaceiros e escravos fazem parte de nossa história.

 


O município de Independência, um dos mais antigos do Ceará, guarda em cada rua, prédio e fazenda, capítulos vivos da história do município. Suas tradições, memórias e crenças formam um patrimônio imensurável que, se bem explorado, pode transformar-se em um verdadeiro motor de desenvolvimento e crescimento para o município. A cidade tem todos os elementos para criar rotas turísticas, religiosas e culturais capazes de atrair visitantes, gerar empregos e fortalecer o sentimento de pertencimento de seu povo.

Independência é um museu a céu aberto. Os prédios centenários no centro da cidade contam histórias de fé e resistência. Na zona rural, as artes rupestres revelam o legado milenar dos primeiros habitantes. Nas antigas fazendas, ainda ecoam as lembranças dos tempos do algodão e da criação de gado, que fizeram do município um polo de riqueza nas décadas passadas. As narrativas sobre cangaceiros, escravos e os vaqueiros poderiam compor rotas temáticas que misturam história, cultura e emoção, resgatando a identidade e o orgulho local.

Fazenda centenária Pitombeira, parte da história do cangaço em Independência.

Na zona rural, há um vasto campo para rotas religiosas e culturais. Lugares de fé, como capelas antigas, santuários e devoções a santos populares, poderiam ser conectados em circuitos que valorizem a religiosidade do povo independente. Essa espiritualidade, tão presente na vida cotidiana, é um traço marcante da cidade e merece ser celebrada, não esquecida.

Enquanto muitos municípios do Ceará já exploram o turismo cultural e religioso como fonte de progresso, Independência ainda guarda suas riquezas no silêncio das memórias. É hora de olhar para o potencial que temos e transformá-lo em oportunidade — com planejamento, incentivo e amor pela nossa terra.

Explorar o turismo histórico, cultural e religioso não é apenas uma forma de gerar renda. É um ato de preservação da identidade, de fortalecimento da comunidade e de reconhecimento do valor do nosso passado. Independência tem tudo para se tornar um roteiro obrigatório do sertão cearense, bastando que acredite em si mesma e dê o primeiro passo rumo a esse futuro promissor.

 Prof. Ricardo Assis



domingo, 5 de outubro de 2025

O mito da manga com leite no Brasil Colonial

Escravo comendo manga com leite no Brasil colonial - imagem criada por IA

 

Entre os muitos causos e crendices que marcaram a vida no Brasil Colonial, poucos se espalharam tanto quanto a ideia de que manga com leite fazia mal à saúde. Até hoje, muita gente já ouviu de pais ou avós a recomendação de não misturar os dois alimentos. Mas de onde surgiu essa crença que atravessou séculos?

Os registros históricos apontam que o mito nasceu ainda nos tempos da escravidão e da formação das grandes fazendas coloniais. O leite era considerado um alimento de grande valor, destinado principalmente aos senhores, colonos e às elites locais. Já a manga, fruto tropical abundante e acessível, era consumida em larga escala pela população pobre e pelos escravizados.

Para evitar que os escravizados consumissem o leite, os senhores criaram a ideia de que misturar leite com manga poderia ser venenoso. Assim, mantinha-se o controle sobre o acesso ao leite, restringindo-o como um privilégio de classe. A proibição funcionava como uma barreira simbólica, sustentada pelo medo e pela ignorância científica da época.

Com o tempo, essa crença foi se tornando parte da cultura popular, passando de geração em geração. Mesmo com o avanço do conhecimento científico e a comprovação de que a mistura não causa nenhum mal — ao contrário, pode até ser nutritiva — a ideia permaneceu viva no imaginário coletivo.

No fundo, a história da manga com leite é um reflexo da desigualdade social e racial do Brasil Colonial, onde até mesmo os hábitos alimentares eram moldados pelo poder e pela hierarquia. O mito não é apenas uma curiosidade folclórica, mas também um símbolo das estratégias de controle e exclusão social utilizadas naquele período.

Hoje, sabemos que manga e leite podem ser combinados sem risco. Sorvetes, vitaminas e sobremesas reúnem os dois ingredientes com sabor e frescor. Ainda assim, o mito resiste, lembrando-nos de como as tradições e narrativas do passado moldam o presente.

O medo de que manga com leite faz mal não tem base científica, mas sim raízes históricas no Brasil Colonial, ligadas à escravidão e ao controle social.

Prof. Ricardo Assis