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| Toinzinho (1921 – 2015) e Socorro plantando o baobá (imbondeiro) da Manchete. Foto: Flávio Paiva (15/11/2013). |
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domingo, 1 de fevereiro de 2026
Um lugar chamado Manchete - Flávio Paiva (O Povo)
domingo, 25 de janeiro de 2026
Independência se destaca na história do algodão e acompanha novo programa de revitalização no Ceará - Prof. Ricardo Assis
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| Carrada de algodão do distrito de Jandrangoeira - Independência. |
O município de Independência teve papel relevante
na produção de algodão no Ceará, especialmente durante o século XIX e grande
parte do século XX, período em que a cotonicultura foi a principal cadeia
produtiva do Estado. Localizada na região dos Inhamuns, a cidade figurou entre
os maiores produtores da cultura, abastecendo outros municípios e a capital
Fortaleza.
Na zona rural de Independência, diversas fazendas
se dedicavam ao cultivo do algodão, que era concentrado na cooperativa
instalada na sede do município para beneficiamento e revenda. A produção
movimentava a economia local e garantia emprego e renda para muitas famílias.
Caminhões carregados saíam regularmente do município com destino a Fortaleza e
a outras cidades cearenses. A importância dessa atividade é simbolizada até
hoje na bandeira de Independência, que traz um galho de algodão como
representação de sua força econômica no passado.
Atualmente, a produção de algodão volta a ganhar
destaque com o lançamento de um programa do Governo do Ceará voltado à
revitalização da cultura. A iniciativa prevê, inicialmente, a distribuição
gratuita de sementes de algodão em 18 municípios, com a meta de alcançar o
plantio em aproximadamente 5 mil hectares. A estimativa é de geração de até 15
mil empregos, considerando uma média de dois a três postos de trabalho por
hectare.
Segundo o governo estadual, o objetivo do programa
é fortalecer a agricultura, estimular a economia rural e resgatar uma atividade
historicamente importante para o Ceará. Para municípios como Independência, a
proposta representa a possibilidade de retomada de uma cultura que marcou sua
trajetória econômica e social, além de abrir novas perspectivas de
desenvolvimento e geração de renda no campo.
Prof. Ricardo Assis
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
A Seca dos Três Setes, dor e resistência no Ceará do século XIX - Prof. Ricardo Assis
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| Seca dos três setes |
A história do Ceará é marcada por episódios de
resistência diante das adversidades impostas pela natureza e pela negligência
do poder público. Entre esses episódios, a Seca dos Três Setes (1877–1879)
ocupa um lugar central na memória histórica e cultural do povo cearense, não
apenas pela intensidade da tragédia, mas pelas profundas transformações sociais
que provocou.
Os primeiros sinais do desastre surgiram ainda em
1876. Embora o início daquele ano tenha registrado chuvas nos primeiros meses,
o restante foi dominado por uma estiagem severa. De junho a dezembro, o sertão
permaneceu sem água. Em 1877, a situação agravou-se: janeiro trouxe apenas
neblina e os meses seguintes apresentaram índices insignificantes de chuva. Ao
perceberem a perda do inverno, os sertanejos, em março e abril, passaram a
abandonar suas terras, iniciando um êxodo em massa rumo ao litoral.
Com a seca, o sertão entrou em colapso. O gado
morreu por falta de aguadas, as lavouras desapareceram e as reservas de
alimentos se esgotaram rapidamente. A fome tornou-se generalizada a partir do
segundo semestre de 1877. Os auxílios governamentais, escassos e desorganizados,
não alcançavam as regiões mais afetadas. Em um cenário de absoluta penúria,
bens pessoais, animais e até terras passaram a ser trocados por pequenas
quantidades de comida, revelando o desespero de quem lutava para sobreviver.
As poucas fontes de água existentes — açudes e
poços cavados nos leitos dos rios — secaram completamente. Nem mesmo as
famílias consideradas mais abastadas conseguiram resistir. Temendo o isolamento
total e a falta de socorro, abandonaram fazendas, casas e rebanhos. O sertão,
antes marcado pela vida e pelo trabalho, transformou-se em um espaço de
abandono e silêncio, um verdadeiro deserto humano e social.
O governo provincial, despreparado para lidar com a
crise, recusou-se inicialmente a enviar recursos ao interior, forçando a
concentração populacional nas cidades litorâneas. Fortaleza, Aracati, Sobral,
Granja e Camocim receberam milhares de retirantes em poucos meses. Sem
infraestrutura para acolher tamanha população, essas cidades viram surgir
acampamentos improvisados, pessoas vivendo ao relento e o aumento de doenças,
violência e miséria. O que antes eram centros urbanos tranquilos tornou-se
palco de sofrimento coletivo.
Em 1878, a esperança de um novo inverno reacendeu
brevemente, mas logo foi frustrada. Entre janeiro e junho daquele ano, as
chuvas foram insuficientes para reverter a seca. A última precipitação ocorreu
em 26 de junho. Após isso, o céu permaneceu limpo e implacável. O abandono do
sertão foi quase completo: vilas inteiras ficaram vazias. Somente com a mudança
de governo e a atuação de Júlio de Albuquerque Barros (1878–1880) surgiram
tentativas mais sistemáticas de socorro às populações remanescentes.
As consequências humanas foram devastadoras.
Fazendas com centenas de cabeças de gado desapareceram. Famílias inteiras
morreram pelas estradas, vítimas da fome e da sede. Muitas das que chegaram ao
litoral estavam tão debilitadas que desfaleciam em praças e calçadas.
Paralelamente, intensificou-se a migração forçada para outras províncias, como
Amazonas, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Milhares de cearenses
foram transportados em navios superlotados, em condições desumanas, ampliando o
sofrimento para além das fronteiras do Ceará.
Entre o final de 1878 e meados de 1879, uma grave
epidemia de varíola agravou ainda mais a tragédia. O número de mortes alcançou
níveis alarmantes, especialmente em Fortaleza, que chegou a abrigar cerca de
180 mil pessoas. A falta de estrutura foi tamanha que muitos corpos
permaneceram insepultos. A morte, a doença e o abandono tornaram-se parte do
cotidiano da população.
A esperança de que 1879 encerrasse esse ciclo de dor foi novamente frustrada. Embora a seca já não tivesse o mesmo impacto no interior, completamente devastado, o foco voltou-se para os centros urbanos, onde se concentravam os retirantes e os esforços governamentais. A Seca dos Três Setes deixou marcas profundas na organização social, na economia e na cultura cearense.
Mais do que um evento climático, a Seca dos Três
Setes é um símbolo da desigualdade, da ausência de políticas públicas eficazes
e da força de um povo que, mesmo diante da fome, da doença e do abandono,
encontrou meios de resistir. Preservar essa memória é fundamental para
compreender o passado e refletir sobre os desafios que ainda persistem no presente.
domingo, 18 de janeiro de 2026
Entre a fé e o esquecimento, Santo popular - a memória de Manoel Cazé – Prof. Ricardo Assis
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| Local do túmulo do Manoel Cazé - Santo popular em Independência |
Em um local silencioso de Independência, onde hoje
o olhar encontra apenas o vazio, existiu um dia um lugar de devoção, respeito e
fé popular. Ali repousava Manoel Cazé, também conhecido como Mané Galinha — um
andarilho marcado pela vida, pelos problemas psicológicos e pela simplicidade
extrema de quem sobrevivia da solidariedade do povo. Caminhava pelas ruas da
cidade e pelas casas dos independencianos pedindo comida, carregando no corpo o
cansaço e, na alma, um mistério que o tempo transformaria em devoção.
No dia 14 de junho de 1972, Manoel Cazé teve uma
morte trágica e sofrida, atropelado por alguém alcoolizado. A brutalidade
daquele fim chocou a cidade e marcou para sempre a memória coletiva. A partir dali
sua figura humilde passou a ocupar um espaço diferente, deixou de ser apenas um
andarilho conhecido para se tornar um santo popular, alguém a quem o povo
recorria em oração, esperança e gratidão.
Durante muitos anos, no Dia de Finados, seu túmulo
recebeu inúmeras visitas. Velas acesas, flores simples, promessas e
agradecimentos revelavam uma fé construída não por decretos oficiais, mas pela
experiência viva do povo. Seu túmulo tornou-se um símbolo silencioso da
religiosidade popular Independenciana, um lugar onde a dor se transformava em
fé e a fé em consolo.
Hoje, porém, esse símbolo não existe mais. O túmulo
foi destruído. Não há vestígios, não há marcas, não há sequer uma placa que
indique que ali, um dia, repousou alguém tão importante para a memória afetiva
da cidade. Em nome do chamado “progresso”, o espaço foi apagado, como se nunca
tivesse existido nada naquele terreno — apenas o chão nu e o silêncio.
Com a destruição do túmulo, perde-se mais do que um local físico, perde-se um pedaço da história do povo de Independência. A memória coletiva vai sendo, aos poucos, apagada, mesmo que a fé do povo continue inabalável. Porque a fé não depende de pedra, cimento ou cruz; ela sobrevive na lembrança, no testemunho e na gratidão daqueles que acreditam ter alcançado alguma graça por intercessão do santo popular.
O Túmulo de Manoel Cazé hoje vive apenas na memória
do povo e nos relatos de quem acredita ter sido beneficiado por sua
intercessão. Vive nas histórias contadas de geração em geração, na saudade e no
respeito por uma figura simples que, mesmo em vida, pouco teve, mas que após a
morte passou a representar esperança para muitos.
Apagar um túmulo não apaga uma história. Enquanto
houver quem lembre, quem conte e quem creia, Manoel Cazé continuará existindo —
não mais naquele terreno vazio, mas no coração e na fé do povo independenciano.
Prof. Ricardo Assis
domingo, 11 de janeiro de 2026
Aula de campo da turma de História de Independência em Crateús (2007) - Prof. Ricardo Assis
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| Turma de História de Independência (2007), aula de Campo. |
No
ano de 2007, a Turma de História de Independência viveu uma experiência que
ultrapassou os limites da sala de aula e ficou marcada na memória de todos, uma
aula de campo junto aos indígenas Tabajaras, no município de Crateús. A visita
representou muito mais do que uma atividade escolar — foi um encontro direto
com a história viva, com a cultura, os saberes e as tradições de um povo
originário que ajudou a construir a identidade do nosso território.
Embora
o tempo tenha apagado alguns detalhes — como o nome da disciplina específica ou
de quem conduziu aquela atividade —, o que permanece vivo é o significado
daquela aula. O contato direto com os Tabajaras permitiu aos alunos compreenderem
a História para além dos livros, enxergando-a como algo pulsante, presente no
cotidiano, nas práticas culturais, nos rituais, nas expressões e na resistência
indígena.
A aula de campo foi um retrato fiel desse momento especial para os alunos,
comunidade indígena, crianças, adultos e lideranças reunidos em um espaço
simples, mas carregado de simbolismo. Um verdadeiro intercâmbio de
conhecimentos, respeito e aprendizado mútuo.
Hoje,
passados quase vinte anos, é motivo de orgulho saber que a maioria daquela
turma se tornou excelentes professores de História. Educadores comprometidos
com o ensino crítico, com a valorização da memória, da cultura local e,
sobretudo, com a formação de novas gerações conscientes de sua identidade e de
seu papel na sociedade.
Aquela
aula de campo foi, sem dúvida, uma semente. Uma prova de que experiências
vividas fora da sala de aula têm o poder de transformar trajetórias, despertar
vocações e reafirmar que ensinar História é, acima de tudo, conectar pessoas,
tempos e realidades. Uma excelente aula de campo — daquelas que o tempo não
apaga.
Prof. Ricardo Assis
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
31 de dezembro de 2015: o dia em que a água venceu a seca em Independência – Prof. Ricardo Assis
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| Governado Camilo Santana na localidade do Jaburu |
No
apagar das luzes de 2015, quando o calendário se preparava para virar mais um
ano, o município de Independência viveu um dos momentos mais marcantes de sua
história recente. No dia 31 de dezembro de 2015, último dia do ano,
a cidade recebeu a visita do então governador do Ceará, Camilo Santana,
para a inauguração
da Adutora de Montagem Rápida, uma obra aguardada com ansiedade
por toda a população.
À
época, Independência atravessava um período crítico de crise hídrica. A
escassez de água afetava diretamente o cotidiano das famílias, o funcionamento
dos serviços públicos e a economia local. Em meio às dificuldades impostas pela
seca prolongada, a chegada da adutora representou mais do que uma obra de
infraestrutura, simbolizou esperança, segurança e dignidade para os
independencianos.
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| Inauguração foi realizada ao lado do Mercado Público |
A adutora, com 27,6 quilômetros de extensão, passou a levar água do açude Jaburu II até a sede urbana do município, garantindo o abastecimento regular da cidade. O investimento, na ordem de R$ 7,4 milhões, foi fundamental para enfrentar os efeitos da estiagem e assegurar um direito básico à população: o acesso à água.
Naquele
período, o município era administrado pelo prefeito Valterlin Coutinho,
que acompanhou a inauguração ao lado de autoridades estaduais, lideranças
locais e da comunidade. O ato solene marcou o encerramento de um ano difícil,
mas também abriu caminho para um novo ciclo, com mais tranquilidade e
perspectivas de desenvolvimento.
Com o passar do tempo, o 31 de dezembro de 2015 consolidou-se como uma data histórica para Independência. Um dia que entrou para a memória coletiva como o momento em que o poder público respondeu a um dos maiores desafios do sertão, a escassez d’água. Mais do que inaugurar uma adutora, aquele dia selou um capítulo importante da história do município, provando que, mesmo em meio às adversidades, é possível transformar realidades e garantir um futuro melhor para a população.
Prof. Ricardo Assis
domingo, 21 de dezembro de 2025
Já está à venda: A Saga do Sertão Livre - Prof. Ricardo Assis
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| A Saga do Sertão Livre mistura ficção com historiografia |
É com grande alegria que anuncio que o livro A
Saga do Sertão Livre, de minha autoria, já está oficialmente à venda. A
obra foi publicada pelo Clube de Autores e já pode ser encontrada em diversas
plataformas, facilitando o acesso dos leitores de todo o Brasil.
O livro está disponível para compra na Agbook, Amazon,
Livrarias da Rua, Estante Virtual, Mercado Livre e Americanas, oferecendo
diferentes opções para quem prefere adquirir sua leitura no formato físico ou
por meio das grandes lojas virtuais.
A Saga do Sertão Livre mergulha
nas histórias, lutas, tradições e personagens marcantes do sertão, retratando
com sensibilidade e realismo a vida no interior nordestino, suas dificuldades,
crenças, relações humanas e a força de um povo que resiste ao tempo e às adversidades.
Convido todos os leitores, amantes da literatura
regional e da história do sertão, a conhecerem essa obra construída com
dedicação, pesquisa e paixão. Seu apoio é fundamental para fortalecer a
literatura independente e valorizar as narrativas que contam a nossa própria
história.
Boa leitura! 📚✨
quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
Independência - 168 anos de história ignorados — um erro que precisa ser corrigido - Prof. Ricardo Assis
O município de Independência não tem 92 anos de
emancipação. Essa narrativa, repetido ano após ano, não apenas distorce os
fatos como também apaga parte significativa da trajetória histórica de uma
terra marcada por lutas, tradições e raízes profundas. Na verdade,
Independência possui 168 anos de fundação, e insistir em comemorar apenas 92 é
reduzir mais da metade de sua história a um silêncio injustificável.
É fundamental destacar que a verdadeira data de
fundação de Independência é 25 de julho de 1857, pelo Decreto Lei nº
436, quando oficialmente se estabeleceu o município. Ignorar essa data — e
substituí-la indevidamente por 4 de dezembro — é um equívoco que compromete a
seriedade com que tratamos nossa própria memória. Ao deslocar a origem de
Independência para quase um século depois, cria-se uma versão simplificada e
empobrecida de um passado que deveria ser celebrado em sua totalidade.
Celebrar o dia 4 de dezembro como marco de
emancipação é um erro histórico que se perpetua, muitas vezes por
desconhecimento, outras por falta de atenção aos registros oficiais e à memória
coletiva. O problema vai além da data, é a mensagem que ela transmite. Ao
reconhecer apenas 92 anos, abandona-se um passado que moldou o povo, a cultura
e a identidade local. São décadas — para não dizer séculos — desperdiçadas em
comemorações desatentas à verdadeira origem do município.
A história é um patrimônio tão valioso quanto
qualquer monumento físico, e ignorá-la significa romper o elo entre o passado e
o presente. Quando um município escolhe celebrar uma data errada, ele não só se
engana, mas também compromete o aprendizado das novas gerações, que deixam de
conhecer a verdadeira cronologia de seu lugar de pertencimento.
É preciso coragem e responsabilidade para retomar a narrativa correta. Reavaliar documentos, ajustar o calendário comemorativo e educar a população sobre a verdadeira história de Independência não é apenas um gesto de reparação, mas uma demonstração de respeito às gerações que construíram esse município muito antes de 1933.
Reconhecer que Independência tem 168 anos, e não
92, é devolver ao povo sua própria história — uma história que merece ser
lembrada, celebrada e preservada com fidelidade.
Prof. Ricardo Assis
sábado, 29 de novembro de 2025
Dois livros sobre o município de Independência foram entregues às bibliotecas e instituições do município – Prof. Ricardo Assis
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| Homem de Visão - autoria Prof. Ricardo Assis - 130 anos de permuta Piauí x Ceará - autoria Joaquim Augusto e Prof. Ricardo Assis |
Nesta
semana, as bibliotecas do município de Independência receberam oficialmente
dois livros de autoria do Prof. Ricardo Assis, que passam a integrar o acervo
de bibliotecas escolares, instituições culturais e espaços de leitura. As obras
entregues foram “O Homem de Visão” (2013), biografia do ex-prefeito Joaquim
Augusto Bezerra, e 130 anos da Permuta entre Piauí x Ceará” (2010), escrita em
parceria com o próprio Joaquim Augusto Bezerra. Ambos os títulos representam
importantes registros da memória histórica e política do município.
Ao todo,
cada instituição recebeu dois exemplares, garantindo que estudantes,
pesquisadores e a comunidade em geral tenham acesso facilitado ao conteúdo.
Foram contempladas: Escola Abigail Antunes Marques, Escola Maria do Carmo,
Escola José Ferreira, Escola Prof. Maria Júlia Fialho, Escola Dep. Jerônimo
Alves de Araújo, Fundação Senhor Pires, ONG História Viva (Biblioteca Estação
Leitura) e a Biblioteca Municipal.
As duas
publicações são fundamentais para compreender aspectos marcantes da identidade
de Independência. Enquanto O Homem de Visão resgata a trajetória de uma
liderança política que marcou a história local, 130 anos da Permuta entre Piauí
x Ceará revisita um dos episódios mais relevantes para a conformação
territorial e cultural da região. A iniciativa reforça o compromisso com a
preservação da história e o incentivo à leitura entre jovens e adultos do
município.
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Memória escravos de Independência - vozes que os documentos não permitem silenciar - Prof. Ricardo Assis
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| Fonte: Ramssés de Souza Silva |
Fragmento de documento de batizado de um filho de casal de escravos em Independência:
"Aos trinta e um dias do mês de Agosto do ano de mil e setecentos e cinco, no acampamento (ou povoado) daquela Paróquia da Serra do Salitre (localidade), batizei solenemente com os Santos Óleos o Reverendo Padre Pascoal Coni ... (Linha muito confusa, menciona talvez a criança e os pais: filho de Damião e sua mulher Lourença...) ... e de sua Mulher Lourença, pelos Curadores de Izabel desta Freguesia (Paróquia), foram Padrinhos Manoel Peres Pinho e Dona Luzia Alves, e todos moradores nesta Paróquia. Deste ato fiz um registo que mandei extrair e assinei. O Vigário Victoriano Jacome d'Almeida."
A partir do documento histórico presente na imagem,
abre-se uma janela profunda para a memória ancestral do município de
Independência. As linhas antigas, escritas com tinta já desbotada, carregam
mais do que simples registros religiosos ou administrativos, revelam vidas,
trajetórias e presenças que, durante muito tempo, foram silenciadas pela
narrativa oficial.
Esse fragmento é mais do que uma prova — é um marco
que reafirma a presença de escravos no município de Independência, contrariando
qualquer tentativa de negar a existência de escravizados no município. A
própria escrita, mencionando nomes, relações familiares e condições de vida,
indica que a população negra esteve inserida na formação social, econômica e
cultural da região.
Locais como São José, Santa Luzia, Santa Cruz e
tantas outras comunidades rurais de Independência, quando observados com
atenção, revelam traços muito fortes de antigas comunidades quilombolas. A organização
social, a permanência de sobrenomes, tradições culturais e a própria dinâmica
de povoamento sugerem uma ancestralidade resistente, construída por pessoas que
fugiram, enfrentaram e sobreviveram à escravidão. Embora sejam necessários
estudos arqueológicos, historiográficos e antropológicos mais profundos, o
pouco de documentação já acessível é suficiente para iluminar esse passado e
reforçar a verdade que sempre esteve ali, Independência foi, sim, um território
marcado pela presença negra e pela luta pela liberdade.
Reconhecer isso não é apenas um ato acadêmico — é um compromisso ético e político. A consciência negra nasce também desse entendimento, de valorizar, honrar e proteger a memória daqueles que foram fundamentais na construção da nossa identidade. Não há mais espaço para negacionismo, tampouco para narrativas que tentam apagar ou suavizar a violência da escravidão. Documentos como o da imagem são testemunhas incontestáveis de uma história que precisa ser contada com verdade, respeito e profundidade.
Que este registro inspire mais pesquisas, mais
preservação e, sobretudo, mais consciência sobre a importância da presença de
escravos na formação do município de Independência.
Prof. Ricardo Assis
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
Saci está solto em Independência - Prof. Ricardo Assis
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O Dia do
Saci e o esquecimento das nossas raízes |
Em
2010, o município de Independência deu um passo simbólico e corajoso ao
instituir o Dia do Saci
em 31 de outubro. Mais do que uma simples data comemorativa, essa lei é um
convite à resistência cultural — uma tentativa de equilibrar o brilho importado
do Halloween
com a riqueza das nossas próprias lendas. Porém, passados mais de dez anos, é
triste perceber que muitas escolas, públicas e privadas, ainda ignoram o
verdadeiro sentido dessa data.
O
Saci, travesso, sábio e profundamente brasileiro, deveria saltar pelos
corredores escolares, pelas bibliotecas e pelas praças, espalhando curiosidade
e orgulho pelo folclore nacional. Mas, em vez disso, o que se vê é a repetição
acrítica de fantasias estrangeiras, enquanto o nosso imaginário popular se
apaga pouco a pouco. O Dia do Saci não é contra o Halloween — é a favor de nós
mesmos. É um chamado para lembrar que nossa cultura é viva, criativa e cheia de
personagens que contam quem somos.
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| Lei Municipal nº 285, de 20 de abril de 2010, sancionada em Independência (CE) |
Cabe
às escolas, aos educadores e à sociedade reacender essa chama. Celebrar o Saci
é reafirmar nossa identidade, valorizar o Brasil que existe nas histórias de
fogueira, nos causos de avó e nas travessuras da imaginação. Ignorar essa lei
é, de certa forma, permitir que o pó da indiferença cubra o brilho das nossas
próprias raízes.
O
Saci está solto em Independência — e que continue assim, lembrando a todos que
preservar o folclore é preservar a alma do nosso povo e nossa cultural.
domingo, 19 de outubro de 2025
Rotas Turísticas, Religiosas e Culturais em Independência, um Caminho para o Futuro - Prof. Ricardo Assis
| Vaqueiros, santos populares, cangaceiros e escravos fazem parte de nossa história. |
O
município de Independência, um dos mais antigos do Ceará, guarda em
cada rua, prédio e fazenda, capítulos vivos da história do município. Suas
tradições, memórias e crenças formam um patrimônio imensurável que, se bem
explorado, pode transformar-se em um verdadeiro motor de desenvolvimento e
crescimento para o município. A cidade tem todos os elementos para criar rotas turísticas,
religiosas e culturais capazes de atrair visitantes, gerar
empregos e fortalecer o sentimento de pertencimento de seu povo.
Independência
é um museu a céu aberto. Os prédios centenários no centro da cidade
contam histórias de fé e resistência. Na zona rural, as artes rupestres
revelam o legado milenar dos primeiros habitantes. Nas antigas fazendas, ainda
ecoam as lembranças dos tempos do algodão e da criação de gado, que
fizeram do município um polo de riqueza nas décadas passadas. As narrativas
sobre cangaceiros,
escravos e os vaqueiros poderiam compor rotas temáticas que
misturam história, cultura e emoção, resgatando a identidade e o orgulho local.
| Fazenda centenária Pitombeira, parte da história do cangaço em Independência. |
Na zona rural, há um vasto campo para rotas religiosas e culturais. Lugares de fé, como capelas antigas, santuários e devoções a santos populares, poderiam ser conectados em circuitos que valorizem a religiosidade do povo independente. Essa espiritualidade, tão presente na vida cotidiana, é um traço marcante da cidade e merece ser celebrada, não esquecida.
Enquanto
muitos municípios do Ceará já exploram o turismo cultural e religioso como
fonte de progresso, Independência ainda guarda suas riquezas no silêncio das
memórias. É hora de olhar para o potencial que temos e transformá-lo em
oportunidade — com planejamento, incentivo e amor pela nossa terra.
Explorar o turismo histórico, cultural e religioso não é apenas uma forma de gerar renda. É um ato de preservação da identidade, de fortalecimento da comunidade e de reconhecimento do valor do nosso passado. Independência tem tudo para se tornar um roteiro obrigatório do sertão cearense, bastando que acredite em si mesma e dê o primeiro passo rumo a esse futuro promissor.
domingo, 5 de outubro de 2025
O mito da manga com leite no Brasil Colonial
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| Escravo comendo manga com leite no Brasil colonial - imagem criada por IA |
Entre os muitos causos e crendices que marcaram a
vida no Brasil Colonial, poucos se espalharam tanto quanto a ideia de que manga
com leite fazia mal à saúde. Até hoje, muita gente já ouviu de pais ou avós a
recomendação de não misturar os dois alimentos. Mas de onde surgiu essa crença
que atravessou séculos?
Os registros históricos apontam que o mito nasceu
ainda nos tempos da escravidão e da formação das grandes fazendas coloniais. O
leite era considerado um alimento de grande valor, destinado principalmente aos
senhores, colonos e às elites locais. Já a manga, fruto tropical abundante e
acessível, era consumida em larga escala pela população pobre e pelos
escravizados.
Para evitar que os escravizados consumissem o
leite, os senhores criaram a ideia de que misturar leite com manga poderia ser
venenoso. Assim, mantinha-se o controle sobre o acesso ao leite, restringindo-o
como um privilégio de classe. A proibição funcionava como uma barreira
simbólica, sustentada pelo medo e pela ignorância científica da época.
Com o tempo, essa crença foi se tornando parte da
cultura popular, passando de geração em geração. Mesmo com o avanço do
conhecimento científico e a comprovação de que a mistura não causa nenhum mal —
ao contrário, pode até ser nutritiva — a ideia permaneceu viva no imaginário
coletivo.
No fundo, a história da manga com leite é um
reflexo da desigualdade social e racial do Brasil Colonial, onde até mesmo os
hábitos alimentares eram moldados pelo poder e pela hierarquia. O mito não é
apenas uma curiosidade folclórica, mas também um símbolo das estratégias de
controle e exclusão social utilizadas naquele período.
Hoje, sabemos que manga e leite podem ser combinados sem risco. Sorvetes, vitaminas e sobremesas reúnem os dois ingredientes com sabor e frescor. Ainda assim, o mito resiste, lembrando-nos de como as tradições e narrativas do passado moldam o presente.
O medo de que manga com leite faz mal não tem base
científica, mas sim raízes históricas no Brasil Colonial, ligadas à escravidão
e ao controle social.
Prof. Ricardo Assis













