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domingo, 15 de março de 2026

Joana D’Arc brasileira: a vida da cearense Jovita Alves Feitosa - História do Ceará

Retrato de Jovita Alves Feitosa, em 1865 - Wikimedia Commons

 

Indignada com os crimes cometidos na Guerra do Paraguai, a mulher alistou-se no exército, mas vestida como um homem.

Nascida em Tauá, no Ceará, a garota tinha 17 anos quando começou a escutar alguns boatos trágicos sobre a Guerra do Paraguai, que já acontecia há seis meses em meados de 1865. Muito além das mortes, a jovem se revoltou quando descobriu que mulheres eram constantemente estupradas por soldados paraguaios.

Indignada com a situação, Jovita decidiu que entraria para o Exército e, assim, se alistaria para servir como combatente no conflito. Logo que expôs tal ideia pela primeira vez, todavia, a jovem foi criticada, já que “uma mulher não poderia ser aceita no Exército”.

Borbulhante, ela não aguentava a simples ideia de ficar em casa enquanto outras pessoas sofriam na Guerra e, assim, teve uma ideia. E se ela mudasse sua aparência completamente e se apresentasse como um homem no dia do alistamento?

Com uma faca em mãos, Jovita olhou para seus cabelos uma última vez antes de apará-los. O corte curto emoldurou seu rosto e a jovem atou seus seios com uma cinta. Satisfeita, ela se apresentou aos oficiais brasileiros e, em pouco tempo, foi aceita.

Retrato de Jovita com aparatos do Exército - Créditos: Divulgação 

Logo que sua ficha foi carimbada, Jovita foi encaminhada para o Corpo dos Voluntários da Pátria, uma seção do Exército que angariava voluntários para a Guerra do Paraguai. Entre os soldados, ela sentia-se confiante, já que sabia atirar e “tinha disposição para aprender o necessário até para matar o inimigo”, segundo investigações posteriores.

Um dia, no entanto, todos os planos da jovem foram jogados ao vento quando outra mulher reparou que Jovita tinha furos de brincos nas orelhas. Desconfiada, ela apalpou o corpo do suposto soldado e descobriu os seios da jovem escondidos nas vestes.

No mesmo dia em que a mentira de Jovita foi desvendada, a garota foi levada até a delegacia. Em frente ao delegado, então, ela começou a lamentar o fim de sua aventura. Frente à devastação da mulher, que parecia desejar a guerra mais que tudo, o homem lhe concedeu o posto de sargento.

Daquele dia em diante, reconhecida como a Joana D’Arc brasileira, Jovita passou a ser representada em peças e poesias. O conto de fadas, no entanto, acabou poucos dias mais tarde, quando a jovem foi destituída de seu cargo.

Em uma carta enviada pelo Ministério da Guerra, ela descobriu que os regulamentos militares não previam a participação de uma mulher no conflito. Assim, ela foi convidada para trabalhar como enfermeira, mas recusou o cargo e voltou para o Ceará.

Oficiais brasileiros posam na iminência da vitória na Guerra do Paraguai, em 1870

De volta ao lugar onde nasceu, indignada com a situação e frustrada com seu fracasso, Jovita tentou voltar para a casa do pai. O homem, no entanto, nem olhou para os olhos da filha. Sozinha e desemparada, portanto, a jovem viajou para o Rio de Janeiro.

O problema é que, mesmo vivendo na Cidade Maravilhosa, Jovita não tinha um tostão sequer em seus bolsos. Sem saída, então, ela recorreu à prostituição. Foram meses nas ruas até que ela conhecesse William Noot, por quem se apaixonou.

Nascido no País de Gales, o homem trabalhava como engenheiro no Brasil e logo caiu nos encantos de Jovita. Juntos, eles tinham os planos de se casar e formar uma família. O castelo de cartas, no entanto, caiu por terra em 1867.

Tudo mudou no dia 9 de outubro daquele ano, quando Jovita recebeu uma carta melancólica de seu amado. No triste bilhete, ele dizia que estava voltando para o País de Gales, já que seu trabalho no Brasil havia acabado.

Retrato de Jovita já no Exército, em 1865

Jovita, a Joana D’Arc brasileira, foi encontrada já sem vida no escritório da casa do homem, com um punhal cravado em seu peito. Ao lado da jovem, que tinha 19 anos quando se suicidou, uma carta anunciava: “Não culpem a minha morte a pessoa alguma. Fui eu quem me matei. A causa só Deus sabe”.

Mais tarde, mesmo sem ter ido para a guerra, ela foi uma das únicas nove mulheres citadas no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”. Em 2019, então, a obra “Jovita Alves Feitosa: Voluntária da Pátria, Voluntária da Morte” contou sua história novamente.


domingo, 8 de março de 2026

Dia das Mulheres - Maria Quitéria, mulher pioneira do Exército brasileiro há 200 anos

 

Maria Quitéria - Redes Sociais

Com cabelo raspado e roupas emprestadas do cunhado, Maria Quitéria se transformou no soldado Medeiros e se alistou no Exército Brasileiro em 1822. Mesmo após ter tido a identidade revelada, a baiana permaneceu na tropa e, por dois séculos, foi a único soldado mulher de que havia registro na história do Brasil.

Maria Quitéria nasceu e cresceu em uma comunidade rural em Feira de Santana, atualmente a segunda maior cidade da Bahia. Com a morte da mãe ainda na infância, ela passou a exercer papéis que não eram associados às mulheres do século XIX, como caçar, pescar e manusear armas.

Com ajuda da irmã, "o soldado Medeiros" - personagem que criou para burlar o impedimento às mulheres na tropa - se alistou no Regimento de Artilharia da Vila de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, para lutar contra as tropas portuguesas nas guerras pela independência do Brasil, em 1822.

A baiana se destacou em três batalhas: em Pirajá, na defesa de Ilha da Maré e na de Piatã, todas ambientadas em Salvador. Na batalha de Piatã, Maria Quitéria entrou em uma trincheira, rendeu os soldados portugueses e os levou, sozinha, para o acampamento.

O feito a rendeu uma condecoração e o reconhecimento pelo então imperador Dom Pedro I, que a entregou a insígnia de "Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro" - uma honraria em reconhecimento ao serviço dos súditos que contribuíram com a nação e demonstrar o alto grau de estima e consideração do monarca.

Mesmo com o reconhecimento dos colegas e com a honraria entregue pelo próprio imperador, Maria Quitéria não passou a compor a corte, nem ganhou um cargo importante. Após a morte do pai, ela se casou, teve uma filha e passou a viver no anonimato em Salvador.

A morte de Maria Quitéria sustenta o paradoxo apontado pelo tenente coronel: aos 61 anos, ela foi enterrada em uma cova rasa, como indigente, em um cemitério que era vizinho à Igreja de Santana, na capital baiana.

Em Salvador, a primeira estátua da heroína só foi inaugurada em 1953, mais de 160 anos depois de sua morte. O reconhecimento pelo Exército aconteceu em 1996, quando ela passou a ser Patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro (QCO) - a escola que forma oficiais para o Exército, em Salvador, abriu as portas ao serviço militar feminino a partir de 1992 e essas mulheres foram incorporadas aos quartéis no ano seguinte, 1993.

Além disso, nenhum quartel do país leva o nome de Maria Quitéria - o que é comum entre seus 'pares' homens. No Rio de Janeiro, fortes homenageiam Duque de Caxias e General Osório, por exemplo. Em Salvador, o 19º Batalhão de Caçadores é chamado de Batalhão Pirajá em homenagem à Batalha de Pirajá, episódio marcante na luta pela Independência.

 

domingo, 1 de março de 2026

A Saga do Sertão Livre, a educadora que transformou gerações em Independência – Prof. Ricardo Assis

Professora Ozanira Macedo, uma das maiores educadoras de Independência.

 

No livro A Saga do Sertão Livre, a homenagem à professora Ozanira Macedo transcende a simples narrativa literária e se transforma em um tributo profundo a uma das educadoras mais respeitadas de Independência. Ao retratá-la com imponência, firmeza e dedicação inabalável ao ensino, a obra eterniza a imagem de uma mulher à frente do seu tempo, que enfrentava as distâncias do sertão e as dificuldades da época movida pela convicção de que a educação era o único caminho capaz de romper as correntes da ignorância. Mesmo descrita com rigor e disciplina, a personagem revela, nas entrelinhas, sensibilidade, compromisso social e uma coragem admirável ao levar o saber a todos — crianças, vaqueiros, escravizados e adultos sedentos por aprender a assinar o próprio nome.

A narrativa evidencia que, mais do que ensinar letras e números, Ozanira plantava esperança. Sua presença marcante, sua postura ética e sua crença inabalável no poder transformador do conhecimento refletem o legado das grandes educadoras que moldaram gerações em Independência. Ao homenageá-la, o livro resgata a memória de uma mestra que fez da sala de aula um instrumento de libertação e do ensino uma missão de vida. Trata-se de um reconhecimento justo e necessário àquelas mulheres que, mesmo com rigor e sacrifício, ajudaram a construir a base educacional e moral do nosso município, deixando sementes que florescem até hoje na história e na identidade do nosso povo.

Prof. Ricardo Assis

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Professor Ricardo Assis destaca projeto “Espalhe Respeito” em entrevista à TV Diário e Verdinha FM

Entrevista ao programa Bom dia, Nordeste com Daniella de Lâvor e Tom Barros 

 

Em entrevista realizada na quarta-feira (18) para o programa Bom Dia, Nordeste, apresentado por Daniella de Lâvor e Tom Barros, o professor Ricardo Assis apresentou o projeto “Espalhe Respeito”, desenvolvido nas escolas Abigail Antunes Marques e Escola Profa. Maria Júlia Fialho. A iniciativa também foi destaque em entrevista concedida à TV Diário e à Verdinha FM, ampliando o alcance da proposta e levando à sociedade um debate essencial sobre educação e cidadania.

Durante a participação, o professor ressaltou que o projeto trabalha quatro temáticas fundamentais para a formação ética e cidadã dos alunos: o autismo, o bullying, o racismo e o respeito ao próximo. Segundo ele, a iniciativa surge como uma resposta à necessidade de promover mais informação, empatia e conscientização dentro do ambiente escolar, fortalecendo valores que contribuem diretamente para o desenvolvimento humano e social dos estudantes.

O “Espalhe Respeito” busca incentivar o diálogo, combater preconceitos e construir uma cultura de paz tanto dentro quanto fora da escola. Para o professor Ricardo Assis, é essencial que os alunos compreendam que o respeito ao próximo não é apenas uma obrigação social, mas um valor indispensável para uma convivência harmoniosa.

A proposta reforça a importância de formar cidadãos mais conscientes, capazes de reconhecer e valorizar as diferenças. Ao abordar temas atuais e sensíveis, o projeto contribui para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e solidária, onde o respeito seja praticado diariamente e as diferenças sejam vistas como riqueza, e não como motivo de exclusão.

 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Carnaval de Independência que o Tempo Não Apagou - Prof. Ricardo Assis

Carnaval no R.E.C - Arquivo Pessoal Geraldo Teles

Houve um tempo em Independência em que o Carnaval era mais que uma festa, era um acontecimento esperado o ano inteiro, vivido intensamente por quatro dias que pareciam eternos na memória e breves na passagem do tempo. Nas décadas de 70, 80 e 90, a cidade sabia, de verdade, o que era um bom Carnaval — daqueles que reuniam turmas de amigos, famílias inteiras, blocos animados, fantasias criativas, rei, rainha, confete, serpentina e uma ingenuidade que hoje mora apenas na saudade.

Os salões do R.E.C., as noites festivas na Churrascaria Santana e a animação no Juazeiro, próximo à Igreja Matriz, eram os grandes palcos da alegria. Ali, a juventude se encontrava, os adultos reviviam seus tempos de folia e as crianças se encantavam com o brilho das máscaras e o colorido das fantasias. Havia também os blocos de rua, que arrastavam multidões ao som de marchinhas e muita animação, enchendo as vias da cidade de música e gargalhadas.

Naquele tempo, participar de um bloco era quase um ritual de pertencimento. Muitos confeccionavam a própria fantasia, improvisando com criatividade e dedicação. Não havia luxo, mas sobrava imaginação. Cada detalhe era feito com carinho, cada adereço carregava a alegria simples de quem queria apenas brincar o Carnaval. Era tudo movido pela amizade, pela união e pela felicidade genuína de estar junto.

Nos clubes, as bandas davam o tom da festa. Black Banda, Os Comanches e tantos outros grupos que embalaram gerações faziam o salão vibrar. As guitarras, os metais e a batida contagiante transformavam as noites em espetáculos de dança e celebração. A memória pode falhar nos nomes, mas jamais esquecerá a emoção daqueles momentos.

Muitos independencianos cresceram pulando Carnaval nas ruas e nos clubes da cidade, construindo laços que atravessaram décadas. Foram carnavais que marcaram vidas, que criaram histórias de amizade, de amores de verão e de sonhos embalados ao som das marchinhas.

Nada supera os carnavais de antigamente. Eram feitos de sonhos, confetes, serpentinas, máscaras e muito brilho — mas, sobretudo, eram feitos de pessoas. Pessoas que, por quatro dias, deixavam as preocupações de lado e se permitiam viver intensamente a alegria. Tempo bom que não volta mais, mas que permanece vivo na lembrança e no coração de quem teve o privilégio de viver aquela época dourada da folia em Independência.

Porque, naquele tempo, as pessoas eram felizes por quatro dias — e, de certa forma, todos os seus sonhos pareciam se realizar.


Prof. Ricardo Assis