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| Retrato de Jovita Alves Feitosa, em 1865 - Wikimedia Commons |
Indignada
com os crimes cometidos na Guerra do Paraguai, a mulher alistou-se no exército,
mas vestida como um homem.
Nascida
em Tauá, no Ceará, a garota tinha 17 anos quando começou a escutar alguns
boatos trágicos sobre a Guerra do Paraguai, que já acontecia há seis meses em
meados de 1865. Muito além das mortes, a jovem se revoltou quando descobriu que
mulheres eram constantemente estupradas por soldados paraguaios.
Indignada
com a situação, Jovita decidiu que entraria para o Exército e, assim,
se alistaria para servir como combatente no conflito. Logo que expôs tal ideia
pela primeira vez, todavia, a jovem foi criticada, já que “uma mulher não
poderia ser aceita no Exército”.
Borbulhante,
ela não aguentava a simples ideia de ficar em casa enquanto outras pessoas
sofriam na Guerra e, assim, teve uma ideia. E se ela mudasse sua aparência
completamente e se apresentasse como um homem no dia do alistamento?
Com
uma faca em mãos, Jovita olhou para seus cabelos uma última vez antes
de apará-los. O corte curto emoldurou seu rosto e a jovem atou seus seios com
uma cinta. Satisfeita, ela se apresentou aos oficiais brasileiros e, em pouco
tempo, foi aceita.
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| Retrato de Jovita com aparatos do Exército - Créditos: Divulgação |
Logo
que sua ficha foi carimbada, Jovita foi encaminhada para o Corpo dos
Voluntários da Pátria, uma seção do Exército que angariava voluntários para a
Guerra do Paraguai. Entre os soldados, ela sentia-se confiante, já que sabia
atirar e “tinha disposição para aprender o necessário até para matar o
inimigo”, segundo investigações posteriores.
Um
dia, no entanto, todos os planos da jovem foram jogados ao vento quando outra
mulher reparou que Jovita tinha furos de brincos nas orelhas.
Desconfiada, ela apalpou o corpo do suposto soldado e descobriu os seios da
jovem escondidos nas vestes.
No
mesmo dia em que a mentira de Jovita foi desvendada, a garota foi
levada até a delegacia. Em frente ao delegado, então, ela começou a lamentar o
fim de sua aventura. Frente à devastação da mulher, que parecia desejar a
guerra mais que tudo, o homem lhe concedeu o posto de sargento.
Daquele
dia em diante, reconhecida como a Joana D’Arc brasileira, Jovita passou
a ser representada em peças e poesias. O conto de fadas, no entanto, acabou
poucos dias mais tarde, quando a jovem foi destituída de seu cargo.
Em uma
carta enviada pelo Ministério da Guerra, ela descobriu que os regulamentos
militares não previam a participação de uma mulher no conflito. Assim, ela foi
convidada para trabalhar como enfermeira, mas recusou o cargo e voltou para o
Ceará.
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| Oficiais brasileiros posam na iminência da vitória na Guerra do Paraguai, em 1870 |
De
volta ao lugar onde nasceu, indignada com a situação e frustrada com seu
fracasso, Jovita tentou voltar para a casa do pai. O homem, no
entanto, nem olhou para os olhos da filha. Sozinha e desemparada, portanto, a
jovem viajou para o Rio de Janeiro.
O
problema é que, mesmo vivendo na Cidade Maravilhosa, Jovita não tinha
um tostão sequer em seus bolsos. Sem saída, então, ela recorreu à prostituição.
Foram meses nas ruas até que ela conhecesse William Noot, por quem se
apaixonou.
Nascido
no País de Gales, o homem trabalhava como engenheiro no Brasil e logo caiu nos
encantos de Jovita. Juntos, eles tinham os planos de se casar e formar uma
família. O castelo de cartas, no entanto, caiu por terra em 1867.
Tudo
mudou no dia 9 de outubro daquele ano, quando Jovita recebeu uma
carta melancólica de seu amado. No triste bilhete, ele dizia que estava
voltando para o País de Gales, já que seu trabalho no Brasil havia acabado.
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| Retrato de Jovita já no Exército, em 1865 |
Jovita, a Joana
D’Arc brasileira, foi encontrada já sem vida no escritório da casa do
homem, com um punhal cravado em seu peito. Ao lado da jovem, que tinha 19 anos
quando se suicidou, uma carta anunciava: “Não culpem a minha morte a pessoa
alguma. Fui eu quem me matei. A causa só Deus sabe”.
Mais
tarde, mesmo sem ter ido para a guerra, ela foi uma das únicas nove mulheres
citadas no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”. Em 2019, então, a obra
“Jovita Alves Feitosa: Voluntária da Pátria, Voluntária da Morte” contou sua
história novamente.




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