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domingo, 26 de julho de 2026

25 de Julho, a verdadeira data do aniversário de Independência - Prof. Ricardo Assis

Festa de Sant'Ana faz parte da celebração do aniversário de Independência

No dia 25 de julho, o município de Independência, Ceará, celebra 169 anos de sua fundação, uma data que representa um dos marcos mais importantes da história do povo independenciano. Mais do que uma comemoração, este momento convida à reflexão sobre nossas origens, nossos fundadores e a preservação da memória histórica que construiu a identidade do município.

Os registros históricos demonstram que a criação da então Vila de Independência ocorreu por meio da Resolução nº 436 da Assembleia Legislativa Provincial do Estado do Piauí, que determinou: "Eleva a Vila Pelo Signal com a denominação de Vila de Independência", em 25 de julho de 1857. Naquele período, o território ainda integrava a Província do Piauí, antes da permuta territorial entre Piauí e Ceará, ocorrida décadas depois.

Entretanto, para compreender verdadeiramente a história de Independência, é preciso voltar ainda mais no tempo. Por volta de 1780, Cap. José Ferreira de Melo, considerado o fundador da povoação, estabeleceu-se na região, contribuindo para o desenvolvimento do núcleo que daria origem à futura vila. O cotidiano dessas famílias era marcado pela criação de gado, pela agricultura de subsistência, pela religiosidade e pelas relações sociais típicas do sertão nordestino. Foram homens e mulheres que enfrentaram as dificuldades do semiárido, abriram caminhos, edificaram moradias e lançaram as bases da comunidade que hoje conhecemos como Independência.

A história é construída por documentos, pesquisas e pela preservação da memória coletiva. Por isso, é fundamental reconhecer que a data de 25 de julho de 1857 representa o nascimento institucional da Vila de Independência. Respeitar esse marco significa valorizar as fontes históricas, os registros oficiais e o trabalho de pesquisadores que se dedicam à reconstrução da trajetória do município.

Ao longo dos anos, consolidou-se também a comemoração em 4 de dezembro, data ligada a acontecimentos administrativos posteriores da história municipal. Contudo, sob a perspectiva da fundação e da elevação à categoria de vila, os documentos históricos indicam o 25 de julho como a verdadeira data de criação de Independência. Conhecer essa distinção fortalece a compreensão da evolução histórica do município, sem apagar os demais acontecimentos que também fizeram parte de sua trajetória.

Não podemos renegar nossa história nem desfazer nosso passado. Um povo que conhece suas origens fortalece sua identidade, preserva seu patrimônio e transmite às novas gerações o sentimento de pertencimento. 

Parabéns, Independência, pelos seus 169 anos de fundação. Que a memória histórica continue sendo valorizada como patrimônio de todos os independencianos, inspirando futuras gerações a conhecer, respeitar e defender a verdadeira história do município.


Prof. Ricardo Assis



domingo, 5 de julho de 2026

Burrinha do Reisado mantém viva a identidade cultural de Independência - Prof. Ricardo Assis

Etevaldo Firmino Araújo, que há 24 anos dança a Burrinha com dedicação e entusiasmo

 

A Burrinha do Reisado é uma das manifestações culturais mais marcantes do sertão cearense, preservando a tradição popular através da música, da dança e da fé. Na comunidade Cachoeira do Fogo, em Independência, essa tradição ganha vida todos os anos com a participação de moradores que mantêm viva a herança dos antigos mestres do reisado.

Entre os grandes nomes dessa manifestação está Etevaldo Firmino Araújo, que há 24 anos dança a Burrinha com dedicação e entusiasmo. Sua apresentação é um verdadeiro espetáculo de resistência física e expressão cultural: durante quase 10 minutos, Etevaldo dança intensamente, acompanhando o ritmo contagiante do reisado e arrancando aplausos do público presente. A energia demonstrada em cada passo revela não apenas habilidade, mas também o profundo amor pela cultura popular nordestina.


A dança de Etevaldo Firmino Araújo tornou-se símbolo de perseverança e identidade cultural


O reisado, reconhecido como uma das mais importantes tradições folclóricas do Nordeste, mistura elementos religiosos e profanos, celebrando a visita dos Reis Magos e fortalecendo os laços comunitários. A figura da Burrinha é um dos momentos mais esperados da apresentação, encantando crianças, jovens e adultos com seus movimentos rápidos e alegres.

Na Cachoeira do Fogo, a dança de Etevaldo Firmino Araújo tornou-se símbolo de perseverança e identidade cultural. Sua trajetória demonstra como a tradição é transmitida de geração em geração, garantindo que o reisado continue vivo no coração do povo independenciano. Mais do que uma apresentação artística, a Burrinha representa memória, pertencimento e orgulho das raízes sertanejas.


Prof. Ricardo Assis

domingo, 28 de junho de 2026

Comunidade Paraíso encanta visitantes com trilha ecológica - Prof. Ricardo Assis

Os alunos da Escola Abigail Antunes Marques vivenciaram uma experiência enriquecedora na Comunidade Paraíso, explorando a trilha ecológica.

                                      

A Comunidade Paraíso, localizada na região de Ematuba, município de Independência-CE, é um verdadeiro patrimônio cultural e histórico do sertão cearense. O material apresentado demonstra o compromisso dos moradores com a preservação dos sítios arqueológicos, a valorização do artesanato local e o fortalecimento do turismo comunitário, tornando a comunidade uma referência para toda a região.

Merecem destaque as guias Katiuce Guerreiro e Kélem Guerreiro, que vêm contribuindo para divulgar e valorizar as riquezas culturais da Comunidade Paraíso. Com dedicação, compromisso e amor por suas raízes, elas ajudam a preservar a memória local e a fortalecer iniciativas que promovem o desenvolvimento sustentável, servindo de inspiração para as novas gerações.

Durante a aula de campo na Comunidade Paraíso, os alunos da Escola Abigail Antunes Marques conheceram de perto um dos sítios arqueológicos da região.

A importância dos sítios arqueológicos reconhecidos pelo IPHAN e a conquista da inclusão desses patrimônios no roteiro turístico oficial do Estado do Ceará, por meio da Lei nº 19.320, de 24 de junho de 2025. Além disso, ressalta a riqueza do artesanato produzido pelos moradores, desde bordados, crochês e peças em palha até produtos da medicina tradicional da Caatinga. A Comunidade Paraíso mostra que a união, a organização comunitária e o respeito à história podem transformar o patrimônio cultural em oportunidade de crescimento, preservando a identidade sertaneja para as futuras gerações.

As pinturas rupestres da Comunidade Paraíso são registros da presença dos povos que habitaram esta região há milhares de anos. 
 

Prof. Ricardo Assis

domingo, 7 de junho de 2026

Independenciano na Guerra do Paraguai - Prof. Ricardo Assis

Independenciano na Guerra do Paraguai - imagem feita por IA.

 

A Guerra do Paraguai, ocorrida entre os anos de 1864 e 1870, foi o maior conflito armado da história da América do Sul. De um lado estava o Paraguai; do outro, Brasil, Argentina e Uruguai, que formaram a Tríplice Aliança. Embora os grandes acontecimentos desse período sejam amplamente conhecidos pela história nacional, algumas narrativas locais revelam como o conflito também alcançou os rincões do sertão cearense, deixando marcas na memória das comunidades.

Em Independência, uma fascinante história atravessou gerações por meio de relatos orais, registros em um antigo livro e vestígios encontrados em uma antiga fazenda da zona rural. Segundo a tradição, um morador da região do interior de Independência, foi convocado para servir durante a Guerra do Paraguai. Viúvo, ele vivia com suas filhas, tendo grande afeição pela mais velha, Maria dos Anjos. Antes de partir para o conflito, chamou a filha e entregou-lhe a chave de seu quarto, recomendando que ninguém abrisse o aposento até seu retorno.

Os meses passaram e, já próximo de completar um ano, o sertanejo foi dispensado do serviço militar e regressou para casa. Sua chegada foi recebida com grande festa pelos familiares e vizinhos. Tiros de bacamarte, ronqueiras e espingardas ecoaram pelos sertões, anunciando a volta daquele que havia partido para a guerra.

Ansiosa para receber o pai da melhor forma possível, Maria dos Anjos decidiu abrir o quarto para realizar uma limpeza. Ao entrar, deparou-se com uma cena inesperada, várias moedas de ouro estavam espalhadas pelo chão, entre os tijolos do piso. Surpresa, recolheu as moedas para entregá-las ao pai quando ele chegasse. Ao relatar o ocorrido, ouviu uma repreensão por não ter seguido sua orientação. Em seguida, o pai revelou o segredo: as moedas marcavam os locais onde, sob determinados tijolos, estava enterrada toda a sua reserva de ouro.

Mais do que uma curiosa história familiar, esse relato demonstra a riqueza das tradições e memórias preservadas em Independência. Narrativas como essa ajudam a compreender aspectos da vida sertaneja no século XIX, as repercussões de acontecimentos nacionais em nossa região e a importância da memória oral na preservação da história local.

O município de Independência possui um vasto patrimônio histórico e cultural, formado não apenas por documentos e construções antigas, mas também pelas histórias transmitidas de geração em geração. Resgatar e divulgar essas narrativas é uma forma de valorizar nossa identidade e manter viva a memória daqueles que ajudaram a construir a história do município.

Prof. Ricardo Assis

 

domingo, 24 de maio de 2026

Independência: locais históricos podem virar rotas turísticas - Prof. Ricardo Assis

Casa de pedra do séc. XIX

 

O município de Independência possui uma história rica, marcada pela cultura, pela fé, pelas tradições sertanejas e pela participação em importantes acontecimentos do Brasil. Durante a Semana do Museu, foi reforçada a importância de preservar essa memória por meio da criação de um museu municipal, um espaço que poderá valorizar a identidade local, incentivar a educação e fortalecer o turismo histórico e cultural.

A história de Independência está diretamente ligada à formação do sertão nordestino e ao desenvolvimento do Ceará. O próprio nome do município desperta curiosidade e remete à relação com os acontecimentos históricos do Brasil. Além disso, a cidade possui registros importantes da cultura sertaneja, antigas fazendas, prédios históricos e tradições que atravessam gerações.

Outro ponto de destaque é o patrimônio arqueológico existente no município. Estudos apontam que Independência possui sítios arqueológicos com arte rupestre, revelando vestígios dos povos antigos que habitaram a região. Esse patrimônio representa uma grande oportunidade para pesquisas, educação e turismo científico.

A história do município também está ligada ao ciclo do gado e à antiga rota dos sertões. A região fazia parte do caminho utilizado pelos vaqueiros que conduziam o gado entre o Piauí e os sertões cearenses, fortalecendo a economia e contribuindo para a formação cultural dos Inhamuns. A figura do vaqueiro, símbolo da resistência sertaneja, continua viva na memória e nas tradições locais.

Sítios arqueológicos com arte rupestre 

Independência também carrega marcas da religiosidade popular. Igrejas centenárias, devoções tradicionais e histórias ligadas à fé ajudam a fortalecer o turismo religioso, que movimenta a economia e valoriza a cultura local. Fé, tradição e desenvolvimento caminham juntos quando a história é preservada e compartilhada com as novas gerações.

A cultura popular é outro patrimônio importante do município. Reisado, rabeca, artesanato e manifestações culturais fazem parte da identidade do povo independenciano. Essas tradições representam não apenas a memória cultural, mas também oportunidades para o empreendedorismo e para o fortalecimento da economia criativa.

Além da história e da cultura, Independência possui potencial para o turismo de aventura e ecológico, com locais que podem atrair visitantes interessados em trilhas, paisagens naturais, rapel e turismo rural. A integração entre patrimônio histórico, natureza e cultura pode transformar o município em uma referência turística regional.

Fazendas centenárias que fizeram parte da história local

A criação de um museu em Independência representa mais do que guardar objetos antigos. Significa preservar histórias, fortalecer a educação, incentivar pesquisas, promover o turismo e gerar desenvolvimento para a cidade. Um museu é um espaço de memória, identidade e valorização do povo.

Preservar a história local é garantir que as futuras gerações conheçam suas origens e compreendam a importância de sua terra na construção da história regional e nacional. Independência possui um patrimônio valioso que merece ser reconhecido, protegido e apresentado ao mundo.

 Prof. Ricardo Assis




domingo, 19 de abril de 2026

Independência: Enigma de Domingos José da Costa, o português esquecido. - Prof. Ricardo Assis

Lapide do português Domingos José da Costa

 Transcrição:

Aqui jaz
DOMINGOS JOSÉ DA COSTA

Nascido em 16 de Outubro de 1802 no
Reino de Portugal e falleceu 25 de
Março de 1862 na Villa da Independência, Pro
vincia do Piauhy. Tributo de amizade
de sua ESPOSA
D. Francisca Valente da Costa.


Em minhas pesquisas, deparei-me com uma descoberta intrigante, a lápide de um português que viveu e morreu em Independência, marcada pelo tempo e pelo silêncio da história. Apesar da clareza do nome gravado na pedra, não foi possível localizar qualquer documento oficial ou relato oral que revelasse detalhes sobre sua vida. Nenhum registro em arquivos, nenhuma memória preservada pelas gerações, apenas a evidência concreta de que ele esteve aque em Independência, existiu e deixou sua última marca no município.

Diante desse vazio histórico, surge uma hipótese que instiga ainda mais a curiosidade, a possibilidade de que esse português tenha chegado à região junto com o fundador de Independência, o Capitão José Ferreira de Melo. Se assim foi, sua trajetória pode ter se entrelaçado com os primeiros passos da formação de nosso município, permanecendo, no entanto, esquecida pelos registros formais. Um personagem oculto nas origens do município, cuja história talvez ainda esteja dispersa em fragmentos à espera de ser reconstruída.

Há nomes que resistem ao tempo como ecos gravados na pedra. Na imagem, uma lápide antiga, marcada por rachaduras e pelo silêncio dos anos, guarda a inscrição de um homem, Domingos José da Costa. Um português. Um estrangeiro que, em algum momento do século XIX, atravessou o oceano e fincou seu destino na então Vila de Independência, na Província do Piauí. Veio de longe — “Reino de Portugal”, diz a inscrição — e aqui terminou sua jornada em 25 de março de 1862. Mas quem era ele, de fato?

Não há registros claros. Nenhum documento oficial, nenhuma narrativa oral preservada, nenhum arquivo que conte sua história. Apenas a pedra, que insiste em não esquecer. Teria sido comerciante? Fazendeiro? Viajante em busca de terras e oportunidades? Ou alguém fugindo de um passado que o mar ajudou a apagar? Sua vida permanece envolta em sombras, como tantas outras que ajudaram a formar o interior nordestino.

E há ainda uma pergunta que atravessa gerações: será que Domingos José da Costa deixou descendentes em Independência? Talvez seu sangue corra, silencioso, nas veias de famílias que hoje desconhecem essa origem. Um sobrenome perdido, um traço herdado, uma história nunca contada à mesa.

A lápide rachada não é apenas um marco de morte, é um convite ao mistério. Um chamado à memória. Porque, às vezes, o que não foi registrado nos livros ainda vive, escondido, na terra, nos nomes e nas histórias que ainda esperam ser descobertas. 

Prof. Ricardo Assis

domingo, 5 de abril de 2026

Porque cobrir as imagens na Quaresma?

a Igreja adota um costume antigo: cobrir as imagens sagradas com tecido roxo, sinal de penitência, recolhimento e preparação espiritual.


Este é um costume muito antigo na história da Igreja. Remonta ao século sétimo indicando um luto antecipado pela morte do Senhor. As imagens são cobertas com um tecido roxo. É uma prática facultativa. O crucifixo é descoberto na sexta-feira da paixão na adoração da Santa Cruz, e os santos na Vigília Pascal. Trata-se de um ato exterior que estimula um ato interior. A atitude da penitência representa pela cor roxa, o arrependimento, a conversão, a mudança de vida.

Quando se cobre as imagens a igreja nos ensina que estamos em um tempo diferente. Além das imagens também tira se as flores do altar, silencia um pouco os instrumentos, suprime o, aleluia não se canta o glória, e as celebrações são mais sóbrias convidando as pessoas a também cobrirem-se, mas espiritualmente para fazerem um exame de consciência, examinarem se, e pedirem de modo especial para mudarem de caminho. Para tal mudança é preciso o arrependimento, o perdão dos pecados, o bom propósito de não pecar mais, e nesta época em especial Jesus nos ajuda a obter este perdão, pois a primeira palavra que Ele falou no alto da cruz foi uma palavra de perdão: “Pai, perdoai-lhes eles não sabem o que fazem.” (Lucas 23,34).



As imagens permanecem cobertas até momentos significativos da Semana Santa: o crucifixo é revelado na Sexta-feira da Paixão, e os santos, na Vigília Pascal.

Cobrir as imagens para simbolizar o período de penitência que estamos vivendo. Na sua paixão foi Jesus que nos cobriu com o manto todo especial, não roxo, mas vermelho era o manto de seu sangue, cobria a multidão dos pecados da humanidade para a modificar por dentro. Por tanto ele espera uma mudança de nosso coração. As imagens em alguns lugares agora estão cobertas pedindo de cada um de nós uma verdadeira conversão interior nesta quaresma.

 

terça-feira, 24 de março de 2026

Preta Tia Simoa e o silenciamento de heroínas negras na História do Brasil

Preta Tia Simoa, liderança grevista heroína da luta contra a escravidão no Brasil..

A História Afro-brasileira foi secundarizada nos livros e currículos escolares, limitando-se a conteúdos sobre escravidão e datas comemorativas. Isto é resultado do viés racista e patriarcal na historiografia burguesa, que protagoniza majoritariamente homens brancos europeus. É crucial trazer à tona as histórias das mulheres negras que foram essenciais nas lutas populares, destacando seus sujeitos, realizações e memórias para além da escravização. Conheça a história de Preta Tia Simoa.

Os relatos sobre a imprescindível participação das mulheres na história da luta do povo são raros e insuficientes. Uma dessas mulheres é destaque na luta do povo cearense. Ela era conhecida como Preta Tia Simoa, uma mulher negra liberta que desempenhou um papel crucial no evento conhecido na história do Ceará como a “Greve dos Jangadeiros”.

Ao lado de seu marido José Luiz Napoleão, Preta Simoa liderou uma significativa mobilização em janeiro de 1881, com o objetivo de impedir o embarque de escravos no porto de Fortaleza. Seu nome oficial (se é que teve algum registro) e seu local de nascimento permanecem desconhecidos.

Durante os preparativos da greve, Preta Tia Simoa convocou os moradores dos arredores do Porto do Mucuripe, organizou reuniões nos morros e angariou apoio para os grevistas. A área circundante era habitada principalmente por pescadores e jangadeiros, muitos deles pardos e negros libertos ou alforriados. Além de se dedicarem à pesca, os jangadeiros do porto também eram responsáveis por carregar mercadorias da praia para os navios. As vilas ao redor, de então e agora, eram áreas de intensa atividade comercial, principalmente relacionada à pesca. Os trabalhadores enfrentavam discriminação, abusos do governo, tributos e violência contra os libertos que eram coagidos a transportar escravos para a província.

Ao participar desse movimento, Preta Simoa também despertou a consciência daqueles que já estavam livres, reconhecendo a necessidade de lutar pela liberdade de todos. Sem essa mobilização popular em massa, as greves de 1881 não teriam sido bem-sucedidas.

O movimento resistiu bravamente às severas repressões policiais. O 15º Batalhão do Exército recusou-se a intervir devido à determinação e coragem dos grevistas. A mobilização se refletiu nas eleições, resultando na eleição de um governador defensor da abolição, Sátiro Dias. A luta só cessou após a promulgação da lei, resultando em mais de 30 mil pessoas libertadas no Ceará.

Preta Simoa desempenhou um papel essencial na comunidade durante o movimento, apesar das dificuldades impostas pelo patriarcado. Teve que se libertar das amarras da prisão doméstica e do preconceito para lutar. No entanto, ela não se deixou intimidar. Infelizmente, não há registros sobre sua data de morte ou onde a líder negra da greve dos jangadeiros foi enterrada. Preta Tia Simoa é uma das várias figuras que sofreram com o silenciamento da história do povo negro. 

  

domingo, 15 de março de 2026

Joana D’Arc brasileira: a vida da cearense Jovita Alves Feitosa - História do Ceará

Retrato de Jovita Alves Feitosa, em 1865 - Wikimedia Commons

 

Indignada com os crimes cometidos na Guerra do Paraguai, a mulher alistou-se no exército, mas vestida como um homem.

Nascida em Tauá, no Ceará, a garota tinha 17 anos quando começou a escutar alguns boatos trágicos sobre a Guerra do Paraguai, que já acontecia há seis meses em meados de 1865. Muito além das mortes, a jovem se revoltou quando descobriu que mulheres eram constantemente estupradas por soldados paraguaios.

Indignada com a situação, Jovita decidiu que entraria para o Exército e, assim, se alistaria para servir como combatente no conflito. Logo que expôs tal ideia pela primeira vez, todavia, a jovem foi criticada, já que “uma mulher não poderia ser aceita no Exército”.

Borbulhante, ela não aguentava a simples ideia de ficar em casa enquanto outras pessoas sofriam na Guerra e, assim, teve uma ideia. E se ela mudasse sua aparência completamente e se apresentasse como um homem no dia do alistamento?

Com uma faca em mãos, Jovita olhou para seus cabelos uma última vez antes de apará-los. O corte curto emoldurou seu rosto e a jovem atou seus seios com uma cinta. Satisfeita, ela se apresentou aos oficiais brasileiros e, em pouco tempo, foi aceita.

Retrato de Jovita com aparatos do Exército - Créditos: Divulgação 

Logo que sua ficha foi carimbada, Jovita foi encaminhada para o Corpo dos Voluntários da Pátria, uma seção do Exército que angariava voluntários para a Guerra do Paraguai. Entre os soldados, ela sentia-se confiante, já que sabia atirar e “tinha disposição para aprender o necessário até para matar o inimigo”, segundo investigações posteriores.

Um dia, no entanto, todos os planos da jovem foram jogados ao vento quando outra mulher reparou que Jovita tinha furos de brincos nas orelhas. Desconfiada, ela apalpou o corpo do suposto soldado e descobriu os seios da jovem escondidos nas vestes.

No mesmo dia em que a mentira de Jovita foi desvendada, a garota foi levada até a delegacia. Em frente ao delegado, então, ela começou a lamentar o fim de sua aventura. Frente à devastação da mulher, que parecia desejar a guerra mais que tudo, o homem lhe concedeu o posto de sargento.

Daquele dia em diante, reconhecida como a Joana D’Arc brasileira, Jovita passou a ser representada em peças e poesias. O conto de fadas, no entanto, acabou poucos dias mais tarde, quando a jovem foi destituída de seu cargo.

Em uma carta enviada pelo Ministério da Guerra, ela descobriu que os regulamentos militares não previam a participação de uma mulher no conflito. Assim, ela foi convidada para trabalhar como enfermeira, mas recusou o cargo e voltou para o Ceará.

Oficiais brasileiros posam na iminência da vitória na Guerra do Paraguai, em 1870

De volta ao lugar onde nasceu, indignada com a situação e frustrada com seu fracasso, Jovita tentou voltar para a casa do pai. O homem, no entanto, nem olhou para os olhos da filha. Sozinha e desemparada, portanto, a jovem viajou para o Rio de Janeiro.

O problema é que, mesmo vivendo na Cidade Maravilhosa, Jovita não tinha um tostão sequer em seus bolsos. Sem saída, então, ela recorreu à prostituição. Foram meses nas ruas até que ela conhecesse William Noot, por quem se apaixonou.

Nascido no País de Gales, o homem trabalhava como engenheiro no Brasil e logo caiu nos encantos de Jovita. Juntos, eles tinham os planos de se casar e formar uma família. O castelo de cartas, no entanto, caiu por terra em 1867.

Tudo mudou no dia 9 de outubro daquele ano, quando Jovita recebeu uma carta melancólica de seu amado. No triste bilhete, ele dizia que estava voltando para o País de Gales, já que seu trabalho no Brasil havia acabado.

Retrato de Jovita já no Exército, em 1865

Jovita, a Joana D’Arc brasileira, foi encontrada já sem vida no escritório da casa do homem, com um punhal cravado em seu peito. Ao lado da jovem, que tinha 19 anos quando se suicidou, uma carta anunciava: “Não culpem a minha morte a pessoa alguma. Fui eu quem me matei. A causa só Deus sabe”.

Mais tarde, mesmo sem ter ido para a guerra, ela foi uma das únicas nove mulheres citadas no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”. Em 2019, então, a obra “Jovita Alves Feitosa: Voluntária da Pátria, Voluntária da Morte” contou sua história novamente.


domingo, 8 de março de 2026

Dia das Mulheres - Maria Quitéria, mulher pioneira do Exército brasileiro há 200 anos

 

Maria Quitéria - Redes Sociais

Com cabelo raspado e roupas emprestadas do cunhado, Maria Quitéria se transformou no soldado Medeiros e se alistou no Exército Brasileiro em 1822. Mesmo após ter tido a identidade revelada, a baiana permaneceu na tropa e, por dois séculos, foi a único soldado mulher de que havia registro na história do Brasil.

Maria Quitéria nasceu e cresceu em uma comunidade rural em Feira de Santana, atualmente a segunda maior cidade da Bahia. Com a morte da mãe ainda na infância, ela passou a exercer papéis que não eram associados às mulheres do século XIX, como caçar, pescar e manusear armas.

Com ajuda da irmã, "o soldado Medeiros" - personagem que criou para burlar o impedimento às mulheres na tropa - se alistou no Regimento de Artilharia da Vila de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, para lutar contra as tropas portuguesas nas guerras pela independência do Brasil, em 1822.

A baiana se destacou em três batalhas: em Pirajá, na defesa de Ilha da Maré e na de Piatã, todas ambientadas em Salvador. Na batalha de Piatã, Maria Quitéria entrou em uma trincheira, rendeu os soldados portugueses e os levou, sozinha, para o acampamento.

O feito a rendeu uma condecoração e o reconhecimento pelo então imperador Dom Pedro I, que a entregou a insígnia de "Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro" - uma honraria em reconhecimento ao serviço dos súditos que contribuíram com a nação e demonstrar o alto grau de estima e consideração do monarca.

Mesmo com o reconhecimento dos colegas e com a honraria entregue pelo próprio imperador, Maria Quitéria não passou a compor a corte, nem ganhou um cargo importante. Após a morte do pai, ela se casou, teve uma filha e passou a viver no anonimato em Salvador.

A morte de Maria Quitéria sustenta o paradoxo apontado pelo tenente coronel: aos 61 anos, ela foi enterrada em uma cova rasa, como indigente, em um cemitério que era vizinho à Igreja de Santana, na capital baiana.

Em Salvador, a primeira estátua da heroína só foi inaugurada em 1953, mais de 160 anos depois de sua morte. O reconhecimento pelo Exército aconteceu em 1996, quando ela passou a ser Patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro (QCO) - a escola que forma oficiais para o Exército, em Salvador, abriu as portas ao serviço militar feminino a partir de 1992 e essas mulheres foram incorporadas aos quartéis no ano seguinte, 1993.

Além disso, nenhum quartel do país leva o nome de Maria Quitéria - o que é comum entre seus 'pares' homens. No Rio de Janeiro, fortes homenageiam Duque de Caxias e General Osório, por exemplo. Em Salvador, o 19º Batalhão de Caçadores é chamado de Batalhão Pirajá em homenagem à Batalha de Pirajá, episódio marcante na luta pela Independência.

 

domingo, 1 de março de 2026

A Saga do Sertão Livre, a educadora que transformou gerações em Independência – Prof. Ricardo Assis

Professora Ozanira Macedo, uma das maiores educadoras de Independência.

 

No livro A Saga do Sertão Livre, a homenagem à professora Ozanira Macedo transcende a simples narrativa literária e se transforma em um tributo profundo a uma das educadoras mais respeitadas de Independência. Ao retratá-la com imponência, firmeza e dedicação inabalável ao ensino, a obra eterniza a imagem de uma mulher à frente do seu tempo, que enfrentava as distâncias do sertão e as dificuldades da época movida pela convicção de que a educação era o único caminho capaz de romper as correntes da ignorância. Mesmo descrita com rigor e disciplina, a personagem revela, nas entrelinhas, sensibilidade, compromisso social e uma coragem admirável ao levar o saber a todos — crianças, vaqueiros, escravizados e adultos sedentos por aprender a assinar o próprio nome.

A narrativa evidencia que, mais do que ensinar letras e números, Ozanira plantava esperança. Sua presença marcante, sua postura ética e sua crença inabalável no poder transformador do conhecimento refletem o legado das grandes educadoras que moldaram gerações em Independência. Ao homenageá-la, o livro resgata a memória de uma mestra que fez da sala de aula um instrumento de libertação e do ensino uma missão de vida. Trata-se de um reconhecimento justo e necessário àquelas mulheres que, mesmo com rigor e sacrifício, ajudaram a construir a base educacional e moral do nosso município, deixando sementes que florescem até hoje na história e na identidade do nosso povo.

Prof. Ricardo Assis

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Professor Ricardo Assis destaca projeto “Espalhe Respeito” em entrevista à TV Diário e Verdinha FM

Entrevista ao programa Bom dia, Nordeste com Daniella de Lâvor e Tom Barros 

 

Em entrevista realizada na quarta-feira (18) para o programa Bom Dia, Nordeste, apresentado por Daniella de Lâvor e Tom Barros, o professor Ricardo Assis apresentou o projeto “Espalhe Respeito”, desenvolvido nas escolas Abigail Antunes Marques e Escola Profa. Maria Júlia Fialho. A iniciativa também foi destaque em entrevista concedida à TV Diário e à Verdinha FM, ampliando o alcance da proposta e levando à sociedade um debate essencial sobre educação e cidadania.

Durante a participação, o professor ressaltou que o projeto trabalha quatro temáticas fundamentais para a formação ética e cidadã dos alunos: o autismo, o bullying, o racismo e o respeito ao próximo. Segundo ele, a iniciativa surge como uma resposta à necessidade de promover mais informação, empatia e conscientização dentro do ambiente escolar, fortalecendo valores que contribuem diretamente para o desenvolvimento humano e social dos estudantes.

O “Espalhe Respeito” busca incentivar o diálogo, combater preconceitos e construir uma cultura de paz tanto dentro quanto fora da escola. Para o professor Ricardo Assis, é essencial que os alunos compreendam que o respeito ao próximo não é apenas uma obrigação social, mas um valor indispensável para uma convivência harmoniosa.

A proposta reforça a importância de formar cidadãos mais conscientes, capazes de reconhecer e valorizar as diferenças. Ao abordar temas atuais e sensíveis, o projeto contribui para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e solidária, onde o respeito seja praticado diariamente e as diferenças sejam vistas como riqueza, e não como motivo de exclusão.

 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Carnaval de Independência que o Tempo Não Apagou - Prof. Ricardo Assis

Carnaval no R.E.C - Arquivo Pessoal Geraldo Teles

Houve um tempo em Independência em que o Carnaval era mais que uma festa, era um acontecimento esperado o ano inteiro, vivido intensamente por quatro dias que pareciam eternos na memória e breves na passagem do tempo. Nas décadas de 70, 80 e 90, a cidade sabia, de verdade, o que era um bom Carnaval — daqueles que reuniam turmas de amigos, famílias inteiras, blocos animados, fantasias criativas, rei, rainha, confete, serpentina e uma ingenuidade que hoje mora apenas na saudade.

Os salões do R.E.C., as noites festivas na Churrascaria Santana e a animação no Juazeiro, próximo à Igreja Matriz, eram os grandes palcos da alegria. Ali, a juventude se encontrava, os adultos reviviam seus tempos de folia e as crianças se encantavam com o brilho das máscaras e o colorido das fantasias. Havia também os blocos de rua, que arrastavam multidões ao som de marchinhas e muita animação, enchendo as vias da cidade de música e gargalhadas.

Naquele tempo, participar de um bloco era quase um ritual de pertencimento. Muitos confeccionavam a própria fantasia, improvisando com criatividade e dedicação. Não havia luxo, mas sobrava imaginação. Cada detalhe era feito com carinho, cada adereço carregava a alegria simples de quem queria apenas brincar o Carnaval. Era tudo movido pela amizade, pela união e pela felicidade genuína de estar junto.

Nos clubes, as bandas davam o tom da festa. Black Banda, Os Comanches e tantos outros grupos que embalaram gerações faziam o salão vibrar. As guitarras, os metais e a batida contagiante transformavam as noites em espetáculos de dança e celebração. A memória pode falhar nos nomes, mas jamais esquecerá a emoção daqueles momentos.

Muitos independencianos cresceram pulando Carnaval nas ruas e nos clubes da cidade, construindo laços que atravessaram décadas. Foram carnavais que marcaram vidas, que criaram histórias de amizade, de amores de verão e de sonhos embalados ao som das marchinhas.

Nada supera os carnavais de antigamente. Eram feitos de sonhos, confetes, serpentinas, máscaras e muito brilho — mas, sobretudo, eram feitos de pessoas. Pessoas que, por quatro dias, deixavam as preocupações de lado e se permitiam viver intensamente a alegria. Tempo bom que não volta mais, mas que permanece vivo na lembrança e no coração de quem teve o privilégio de viver aquela época dourada da folia em Independência.

Porque, naquele tempo, as pessoas eram felizes por quatro dias — e, de certa forma, todos os seus sonhos pareciam se realizar.


Prof. Ricardo Assis  

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Escritor independenciano Flávio Paiva promove roda de leitura com crianças em Angola - Prof. Ricardo Assis

Escritor Flávio Paiva na roda de leitura com crianças em Angola


 

O escritor Flávio Paiva, natural do município de Independência, realizou na manhã no sábado, 7, uma emocionante roda de leitura com crianças em Luanda, capital de Angola, reforçando os laços culturais entre o Brasil e a África por meio da literatura infantil. A atividade aconteceu às 10 horas e reuniu crianças em um ambiente acolhedor, marcado pela escuta atenta, interação e troca de saberes. O evento aconteceu na livraria Kiela.

Durante o encontro, Flávio Paiva apresentou suas obras “Brincadeiras de Cantar” e “Que noite, Tórito”, conduzindo a leitura de forma participativa, estimulando a imaginação, a oralidade e o gosto pelos livros. O evento teve momentos de afeto e proximidade entre o autor e as crianças, que acompanharam a leitura com curiosidade e entusiasmo, manuseando os livros e interagindo com o escritor. A iniciativa destaca a importância da literatura como instrumento de formação, identidade e aproximação cultural, além de projetar o nome de Independência no cenário internacional por meio da educação e da arte.

Flávio Paiva é escritor, educador e mediador de leitura, natural do município de Independência, no sertão cearense, terra que marca profundamente sua trajetória pessoal e literária. É a partir das memórias, vivências e manifestações culturais do interior nordestino que constrói uma obra sensível e comprometida com a formação leitora de crianças, valorizando a oralidade, as brincadeiras populares e a diversidade cultural. Reconhecido por seu trabalho com literatura infantil e ações de incentivo à leitura no Brasil e no exterior, Flávio Paiva leva consigo as raízes de Independência, transformando sua origem em fonte de inspiração e identidade em cada projeto que desenvolve.