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| Toinzinho (1921 – 2015) e Socorro plantando o baobá (imbondeiro) da Manchete. Foto: Flávio Paiva (15/11/2013). |
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domingo, 1 de fevereiro de 2026
Um lugar chamado Manchete - Flávio Paiva (O Povo)
domingo, 25 de janeiro de 2026
Independência se destaca na história do algodão e acompanha novo programa de revitalização no Ceará - Prof. Ricardo Assis
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| Carrada de algodão do distrito de Jandrangoeira - Independência. |
O município de Independência teve papel relevante
na produção de algodão no Ceará, especialmente durante o século XIX e grande
parte do século XX, período em que a cotonicultura foi a principal cadeia
produtiva do Estado. Localizada na região dos Inhamuns, a cidade figurou entre
os maiores produtores da cultura, abastecendo outros municípios e a capital
Fortaleza.
Na zona rural de Independência, diversas fazendas
se dedicavam ao cultivo do algodão, que era concentrado na cooperativa
instalada na sede do município para beneficiamento e revenda. A produção
movimentava a economia local e garantia emprego e renda para muitas famílias.
Caminhões carregados saíam regularmente do município com destino a Fortaleza e
a outras cidades cearenses. A importância dessa atividade é simbolizada até
hoje na bandeira de Independência, que traz um galho de algodão como
representação de sua força econômica no passado.
Atualmente, a produção de algodão volta a ganhar
destaque com o lançamento de um programa do Governo do Ceará voltado à
revitalização da cultura. A iniciativa prevê, inicialmente, a distribuição
gratuita de sementes de algodão em 18 municípios, com a meta de alcançar o
plantio em aproximadamente 5 mil hectares. A estimativa é de geração de até 15
mil empregos, considerando uma média de dois a três postos de trabalho por
hectare.
Segundo o governo estadual, o objetivo do programa
é fortalecer a agricultura, estimular a economia rural e resgatar uma atividade
historicamente importante para o Ceará. Para municípios como Independência, a
proposta representa a possibilidade de retomada de uma cultura que marcou sua
trajetória econômica e social, além de abrir novas perspectivas de
desenvolvimento e geração de renda no campo.
Prof. Ricardo Assis
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
A Seca dos Três Setes, dor e resistência no Ceará do século XIX - Prof. Ricardo Assis
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| Seca dos três setes |
A história do Ceará é marcada por episódios de
resistência diante das adversidades impostas pela natureza e pela negligência
do poder público. Entre esses episódios, a Seca dos Três Setes (1877–1879)
ocupa um lugar central na memória histórica e cultural do povo cearense, não
apenas pela intensidade da tragédia, mas pelas profundas transformações sociais
que provocou.
Os primeiros sinais do desastre surgiram ainda em
1876. Embora o início daquele ano tenha registrado chuvas nos primeiros meses,
o restante foi dominado por uma estiagem severa. De junho a dezembro, o sertão
permaneceu sem água. Em 1877, a situação agravou-se: janeiro trouxe apenas
neblina e os meses seguintes apresentaram índices insignificantes de chuva. Ao
perceberem a perda do inverno, os sertanejos, em março e abril, passaram a
abandonar suas terras, iniciando um êxodo em massa rumo ao litoral.
Com a seca, o sertão entrou em colapso. O gado
morreu por falta de aguadas, as lavouras desapareceram e as reservas de
alimentos se esgotaram rapidamente. A fome tornou-se generalizada a partir do
segundo semestre de 1877. Os auxílios governamentais, escassos e desorganizados,
não alcançavam as regiões mais afetadas. Em um cenário de absoluta penúria,
bens pessoais, animais e até terras passaram a ser trocados por pequenas
quantidades de comida, revelando o desespero de quem lutava para sobreviver.
As poucas fontes de água existentes — açudes e
poços cavados nos leitos dos rios — secaram completamente. Nem mesmo as
famílias consideradas mais abastadas conseguiram resistir. Temendo o isolamento
total e a falta de socorro, abandonaram fazendas, casas e rebanhos. O sertão,
antes marcado pela vida e pelo trabalho, transformou-se em um espaço de
abandono e silêncio, um verdadeiro deserto humano e social.
O governo provincial, despreparado para lidar com a
crise, recusou-se inicialmente a enviar recursos ao interior, forçando a
concentração populacional nas cidades litorâneas. Fortaleza, Aracati, Sobral,
Granja e Camocim receberam milhares de retirantes em poucos meses. Sem
infraestrutura para acolher tamanha população, essas cidades viram surgir
acampamentos improvisados, pessoas vivendo ao relento e o aumento de doenças,
violência e miséria. O que antes eram centros urbanos tranquilos tornou-se
palco de sofrimento coletivo.
Em 1878, a esperança de um novo inverno reacendeu
brevemente, mas logo foi frustrada. Entre janeiro e junho daquele ano, as
chuvas foram insuficientes para reverter a seca. A última precipitação ocorreu
em 26 de junho. Após isso, o céu permaneceu limpo e implacável. O abandono do
sertão foi quase completo: vilas inteiras ficaram vazias. Somente com a mudança
de governo e a atuação de Júlio de Albuquerque Barros (1878–1880) surgiram
tentativas mais sistemáticas de socorro às populações remanescentes.
As consequências humanas foram devastadoras.
Fazendas com centenas de cabeças de gado desapareceram. Famílias inteiras
morreram pelas estradas, vítimas da fome e da sede. Muitas das que chegaram ao
litoral estavam tão debilitadas que desfaleciam em praças e calçadas.
Paralelamente, intensificou-se a migração forçada para outras províncias, como
Amazonas, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Milhares de cearenses
foram transportados em navios superlotados, em condições desumanas, ampliando o
sofrimento para além das fronteiras do Ceará.
Entre o final de 1878 e meados de 1879, uma grave
epidemia de varíola agravou ainda mais a tragédia. O número de mortes alcançou
níveis alarmantes, especialmente em Fortaleza, que chegou a abrigar cerca de
180 mil pessoas. A falta de estrutura foi tamanha que muitos corpos
permaneceram insepultos. A morte, a doença e o abandono tornaram-se parte do
cotidiano da população.
A esperança de que 1879 encerrasse esse ciclo de dor foi novamente frustrada. Embora a seca já não tivesse o mesmo impacto no interior, completamente devastado, o foco voltou-se para os centros urbanos, onde se concentravam os retirantes e os esforços governamentais. A Seca dos Três Setes deixou marcas profundas na organização social, na economia e na cultura cearense.
Mais do que um evento climático, a Seca dos Três
Setes é um símbolo da desigualdade, da ausência de políticas públicas eficazes
e da força de um povo que, mesmo diante da fome, da doença e do abandono,
encontrou meios de resistir. Preservar essa memória é fundamental para
compreender o passado e refletir sobre os desafios que ainda persistem no presente.
domingo, 18 de janeiro de 2026
Entre a fé e o esquecimento, Santo popular - a memória de Manoel Cazé – Prof. Ricardo Assis
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| Local do túmulo do Manoel Cazé - Santo popular em Independência |
Em um local silencioso de Independência, onde hoje
o olhar encontra apenas o vazio, existiu um dia um lugar de devoção, respeito e
fé popular. Ali repousava Manoel Cazé, também conhecido como Mané Galinha — um
andarilho marcado pela vida, pelos problemas psicológicos e pela simplicidade
extrema de quem sobrevivia da solidariedade do povo. Caminhava pelas ruas da
cidade e pelas casas dos independencianos pedindo comida, carregando no corpo o
cansaço e, na alma, um mistério que o tempo transformaria em devoção.
No dia 14 de junho de 1972, Manoel Cazé teve uma
morte trágica e sofrida, atropelado por alguém alcoolizado. A brutalidade
daquele fim chocou a cidade e marcou para sempre a memória coletiva. A partir dali
sua figura humilde passou a ocupar um espaço diferente, deixou de ser apenas um
andarilho conhecido para se tornar um santo popular, alguém a quem o povo
recorria em oração, esperança e gratidão.
Durante muitos anos, no Dia de Finados, seu túmulo
recebeu inúmeras visitas. Velas acesas, flores simples, promessas e
agradecimentos revelavam uma fé construída não por decretos oficiais, mas pela
experiência viva do povo. Seu túmulo tornou-se um símbolo silencioso da
religiosidade popular Independenciana, um lugar onde a dor se transformava em
fé e a fé em consolo.
Hoje, porém, esse símbolo não existe mais. O túmulo
foi destruído. Não há vestígios, não há marcas, não há sequer uma placa que
indique que ali, um dia, repousou alguém tão importante para a memória afetiva
da cidade. Em nome do chamado “progresso”, o espaço foi apagado, como se nunca
tivesse existido nada naquele terreno — apenas o chão nu e o silêncio.
Com a destruição do túmulo, perde-se mais do que um local físico, perde-se um pedaço da história do povo de Independência. A memória coletiva vai sendo, aos poucos, apagada, mesmo que a fé do povo continue inabalável. Porque a fé não depende de pedra, cimento ou cruz; ela sobrevive na lembrança, no testemunho e na gratidão daqueles que acreditam ter alcançado alguma graça por intercessão do santo popular.
O Túmulo de Manoel Cazé hoje vive apenas na memória
do povo e nos relatos de quem acredita ter sido beneficiado por sua
intercessão. Vive nas histórias contadas de geração em geração, na saudade e no
respeito por uma figura simples que, mesmo em vida, pouco teve, mas que após a
morte passou a representar esperança para muitos.
Apagar um túmulo não apaga uma história. Enquanto
houver quem lembre, quem conte e quem creia, Manoel Cazé continuará existindo —
não mais naquele terreno vazio, mas no coração e na fé do povo independenciano.
Prof. Ricardo Assis
domingo, 11 de janeiro de 2026
Aula de campo da turma de História de Independência em Crateús (2007) - Prof. Ricardo Assis
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| Turma de História de Independência (2007), aula de Campo. |
No
ano de 2007, a Turma de História de Independência viveu uma experiência que
ultrapassou os limites da sala de aula e ficou marcada na memória de todos, uma
aula de campo junto aos indígenas Tabajaras, no município de Crateús. A visita
representou muito mais do que uma atividade escolar — foi um encontro direto
com a história viva, com a cultura, os saberes e as tradições de um povo
originário que ajudou a construir a identidade do nosso território.
Embora
o tempo tenha apagado alguns detalhes — como o nome da disciplina específica ou
de quem conduziu aquela atividade —, o que permanece vivo é o significado
daquela aula. O contato direto com os Tabajaras permitiu aos alunos compreenderem
a História para além dos livros, enxergando-a como algo pulsante, presente no
cotidiano, nas práticas culturais, nos rituais, nas expressões e na resistência
indígena.
A aula de campo foi um retrato fiel desse momento especial para os alunos,
comunidade indígena, crianças, adultos e lideranças reunidos em um espaço
simples, mas carregado de simbolismo. Um verdadeiro intercâmbio de
conhecimentos, respeito e aprendizado mútuo.
Hoje,
passados quase vinte anos, é motivo de orgulho saber que a maioria daquela
turma se tornou excelentes professores de História. Educadores comprometidos
com o ensino crítico, com a valorização da memória, da cultura local e,
sobretudo, com a formação de novas gerações conscientes de sua identidade e de
seu papel na sociedade.
Aquela
aula de campo foi, sem dúvida, uma semente. Uma prova de que experiências
vividas fora da sala de aula têm o poder de transformar trajetórias, despertar
vocações e reafirmar que ensinar História é, acima de tudo, conectar pessoas,
tempos e realidades. Uma excelente aula de campo — daquelas que o tempo não
apaga.
Prof. Ricardo Assis
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
31 de dezembro de 2015: o dia em que a água venceu a seca em Independência – Prof. Ricardo Assis
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| Governado Camilo Santana na localidade do Jaburu |
No
apagar das luzes de 2015, quando o calendário se preparava para virar mais um
ano, o município de Independência viveu um dos momentos mais marcantes de sua
história recente. No dia 31 de dezembro de 2015, último dia do ano,
a cidade recebeu a visita do então governador do Ceará, Camilo Santana,
para a inauguração
da Adutora de Montagem Rápida, uma obra aguardada com ansiedade
por toda a população.
À
época, Independência atravessava um período crítico de crise hídrica. A
escassez de água afetava diretamente o cotidiano das famílias, o funcionamento
dos serviços públicos e a economia local. Em meio às dificuldades impostas pela
seca prolongada, a chegada da adutora representou mais do que uma obra de
infraestrutura, simbolizou esperança, segurança e dignidade para os
independencianos.
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| Inauguração foi realizada ao lado do Mercado Público |
A adutora, com 27,6 quilômetros de extensão, passou a levar água do açude Jaburu II até a sede urbana do município, garantindo o abastecimento regular da cidade. O investimento, na ordem de R$ 7,4 milhões, foi fundamental para enfrentar os efeitos da estiagem e assegurar um direito básico à população: o acesso à água.
Naquele
período, o município era administrado pelo prefeito Valterlin Coutinho,
que acompanhou a inauguração ao lado de autoridades estaduais, lideranças
locais e da comunidade. O ato solene marcou o encerramento de um ano difícil,
mas também abriu caminho para um novo ciclo, com mais tranquilidade e
perspectivas de desenvolvimento.
Com o passar do tempo, o 31 de dezembro de 2015 consolidou-se como uma data histórica para Independência. Um dia que entrou para a memória coletiva como o momento em que o poder público respondeu a um dos maiores desafios do sertão, a escassez d’água. Mais do que inaugurar uma adutora, aquele dia selou um capítulo importante da história do município, provando que, mesmo em meio às adversidades, é possível transformar realidades e garantir um futuro melhor para a população.
Prof. Ricardo Assis






