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domingo, 15 de março de 2026

Joana D’Arc brasileira: a vida da cearense Jovita Alves Feitosa - História do Ceará

Retrato de Jovita Alves Feitosa, em 1865 - Wikimedia Commons

 

Indignada com os crimes cometidos na Guerra do Paraguai, a mulher alistou-se no exército, mas vestida como um homem.

Nascida em Tauá, no Ceará, a garota tinha 17 anos quando começou a escutar alguns boatos trágicos sobre a Guerra do Paraguai, que já acontecia há seis meses em meados de 1865. Muito além das mortes, a jovem se revoltou quando descobriu que mulheres eram constantemente estupradas por soldados paraguaios.

Indignada com a situação, Jovita decidiu que entraria para o Exército e, assim, se alistaria para servir como combatente no conflito. Logo que expôs tal ideia pela primeira vez, todavia, a jovem foi criticada, já que “uma mulher não poderia ser aceita no Exército”.

Borbulhante, ela não aguentava a simples ideia de ficar em casa enquanto outras pessoas sofriam na Guerra e, assim, teve uma ideia. E se ela mudasse sua aparência completamente e se apresentasse como um homem no dia do alistamento?

Com uma faca em mãos, Jovita olhou para seus cabelos uma última vez antes de apará-los. O corte curto emoldurou seu rosto e a jovem atou seus seios com uma cinta. Satisfeita, ela se apresentou aos oficiais brasileiros e, em pouco tempo, foi aceita.

Retrato de Jovita com aparatos do Exército - Créditos: Divulgação 

Logo que sua ficha foi carimbada, Jovita foi encaminhada para o Corpo dos Voluntários da Pátria, uma seção do Exército que angariava voluntários para a Guerra do Paraguai. Entre os soldados, ela sentia-se confiante, já que sabia atirar e “tinha disposição para aprender o necessário até para matar o inimigo”, segundo investigações posteriores.

Um dia, no entanto, todos os planos da jovem foram jogados ao vento quando outra mulher reparou que Jovita tinha furos de brincos nas orelhas. Desconfiada, ela apalpou o corpo do suposto soldado e descobriu os seios da jovem escondidos nas vestes.

No mesmo dia em que a mentira de Jovita foi desvendada, a garota foi levada até a delegacia. Em frente ao delegado, então, ela começou a lamentar o fim de sua aventura. Frente à devastação da mulher, que parecia desejar a guerra mais que tudo, o homem lhe concedeu o posto de sargento.

Daquele dia em diante, reconhecida como a Joana D’Arc brasileira, Jovita passou a ser representada em peças e poesias. O conto de fadas, no entanto, acabou poucos dias mais tarde, quando a jovem foi destituída de seu cargo.

Em uma carta enviada pelo Ministério da Guerra, ela descobriu que os regulamentos militares não previam a participação de uma mulher no conflito. Assim, ela foi convidada para trabalhar como enfermeira, mas recusou o cargo e voltou para o Ceará.

Oficiais brasileiros posam na iminência da vitória na Guerra do Paraguai, em 1870

De volta ao lugar onde nasceu, indignada com a situação e frustrada com seu fracasso, Jovita tentou voltar para a casa do pai. O homem, no entanto, nem olhou para os olhos da filha. Sozinha e desemparada, portanto, a jovem viajou para o Rio de Janeiro.

O problema é que, mesmo vivendo na Cidade Maravilhosa, Jovita não tinha um tostão sequer em seus bolsos. Sem saída, então, ela recorreu à prostituição. Foram meses nas ruas até que ela conhecesse William Noot, por quem se apaixonou.

Nascido no País de Gales, o homem trabalhava como engenheiro no Brasil e logo caiu nos encantos de Jovita. Juntos, eles tinham os planos de se casar e formar uma família. O castelo de cartas, no entanto, caiu por terra em 1867.

Tudo mudou no dia 9 de outubro daquele ano, quando Jovita recebeu uma carta melancólica de seu amado. No triste bilhete, ele dizia que estava voltando para o País de Gales, já que seu trabalho no Brasil havia acabado.

Retrato de Jovita já no Exército, em 1865

Jovita, a Joana D’Arc brasileira, foi encontrada já sem vida no escritório da casa do homem, com um punhal cravado em seu peito. Ao lado da jovem, que tinha 19 anos quando se suicidou, uma carta anunciava: “Não culpem a minha morte a pessoa alguma. Fui eu quem me matei. A causa só Deus sabe”.

Mais tarde, mesmo sem ter ido para a guerra, ela foi uma das únicas nove mulheres citadas no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”. Em 2019, então, a obra “Jovita Alves Feitosa: Voluntária da Pátria, Voluntária da Morte” contou sua história novamente.


domingo, 8 de março de 2026

Dia das Mulheres - Maria Quitéria, mulher pioneira do Exército brasileiro há 200 anos

 

Maria Quitéria - Redes Sociais

Com cabelo raspado e roupas emprestadas do cunhado, Maria Quitéria se transformou no soldado Medeiros e se alistou no Exército Brasileiro em 1822. Mesmo após ter tido a identidade revelada, a baiana permaneceu na tropa e, por dois séculos, foi a único soldado mulher de que havia registro na história do Brasil.

Maria Quitéria nasceu e cresceu em uma comunidade rural em Feira de Santana, atualmente a segunda maior cidade da Bahia. Com a morte da mãe ainda na infância, ela passou a exercer papéis que não eram associados às mulheres do século XIX, como caçar, pescar e manusear armas.

Com ajuda da irmã, "o soldado Medeiros" - personagem que criou para burlar o impedimento às mulheres na tropa - se alistou no Regimento de Artilharia da Vila de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, para lutar contra as tropas portuguesas nas guerras pela independência do Brasil, em 1822.

A baiana se destacou em três batalhas: em Pirajá, na defesa de Ilha da Maré e na de Piatã, todas ambientadas em Salvador. Na batalha de Piatã, Maria Quitéria entrou em uma trincheira, rendeu os soldados portugueses e os levou, sozinha, para o acampamento.

O feito a rendeu uma condecoração e o reconhecimento pelo então imperador Dom Pedro I, que a entregou a insígnia de "Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro" - uma honraria em reconhecimento ao serviço dos súditos que contribuíram com a nação e demonstrar o alto grau de estima e consideração do monarca.

Mesmo com o reconhecimento dos colegas e com a honraria entregue pelo próprio imperador, Maria Quitéria não passou a compor a corte, nem ganhou um cargo importante. Após a morte do pai, ela se casou, teve uma filha e passou a viver no anonimato em Salvador.

A morte de Maria Quitéria sustenta o paradoxo apontado pelo tenente coronel: aos 61 anos, ela foi enterrada em uma cova rasa, como indigente, em um cemitério que era vizinho à Igreja de Santana, na capital baiana.

Em Salvador, a primeira estátua da heroína só foi inaugurada em 1953, mais de 160 anos depois de sua morte. O reconhecimento pelo Exército aconteceu em 1996, quando ela passou a ser Patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro (QCO) - a escola que forma oficiais para o Exército, em Salvador, abriu as portas ao serviço militar feminino a partir de 1992 e essas mulheres foram incorporadas aos quartéis no ano seguinte, 1993.

Além disso, nenhum quartel do país leva o nome de Maria Quitéria - o que é comum entre seus 'pares' homens. No Rio de Janeiro, fortes homenageiam Duque de Caxias e General Osório, por exemplo. Em Salvador, o 19º Batalhão de Caçadores é chamado de Batalhão Pirajá em homenagem à Batalha de Pirajá, episódio marcante na luta pela Independência.

 

domingo, 1 de março de 2026

A Saga do Sertão Livre, a educadora que transformou gerações em Independência – Prof. Ricardo Assis

Professora Ozanira Macedo, uma das maiores educadoras de Independência.

 

No livro A Saga do Sertão Livre, a homenagem à professora Ozanira Macedo transcende a simples narrativa literária e se transforma em um tributo profundo a uma das educadoras mais respeitadas de Independência. Ao retratá-la com imponência, firmeza e dedicação inabalável ao ensino, a obra eterniza a imagem de uma mulher à frente do seu tempo, que enfrentava as distâncias do sertão e as dificuldades da época movida pela convicção de que a educação era o único caminho capaz de romper as correntes da ignorância. Mesmo descrita com rigor e disciplina, a personagem revela, nas entrelinhas, sensibilidade, compromisso social e uma coragem admirável ao levar o saber a todos — crianças, vaqueiros, escravizados e adultos sedentos por aprender a assinar o próprio nome.

A narrativa evidencia que, mais do que ensinar letras e números, Ozanira plantava esperança. Sua presença marcante, sua postura ética e sua crença inabalável no poder transformador do conhecimento refletem o legado das grandes educadoras que moldaram gerações em Independência. Ao homenageá-la, o livro resgata a memória de uma mestra que fez da sala de aula um instrumento de libertação e do ensino uma missão de vida. Trata-se de um reconhecimento justo e necessário àquelas mulheres que, mesmo com rigor e sacrifício, ajudaram a construir a base educacional e moral do nosso município, deixando sementes que florescem até hoje na história e na identidade do nosso povo.

Prof. Ricardo Assis

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Professor Ricardo Assis destaca projeto “Espalhe Respeito” em entrevista à TV Diário e Verdinha FM

Entrevista ao programa Bom dia, Nordeste com Daniella de Lâvor e Tom Barros 

 

Em entrevista realizada na quarta-feira (18) para o programa Bom Dia, Nordeste, apresentado por Daniella de Lâvor e Tom Barros, o professor Ricardo Assis apresentou o projeto “Espalhe Respeito”, desenvolvido nas escolas Abigail Antunes Marques e Escola Profa. Maria Júlia Fialho. A iniciativa também foi destaque em entrevista concedida à TV Diário e à Verdinha FM, ampliando o alcance da proposta e levando à sociedade um debate essencial sobre educação e cidadania.

Durante a participação, o professor ressaltou que o projeto trabalha quatro temáticas fundamentais para a formação ética e cidadã dos alunos: o autismo, o bullying, o racismo e o respeito ao próximo. Segundo ele, a iniciativa surge como uma resposta à necessidade de promover mais informação, empatia e conscientização dentro do ambiente escolar, fortalecendo valores que contribuem diretamente para o desenvolvimento humano e social dos estudantes.

O “Espalhe Respeito” busca incentivar o diálogo, combater preconceitos e construir uma cultura de paz tanto dentro quanto fora da escola. Para o professor Ricardo Assis, é essencial que os alunos compreendam que o respeito ao próximo não é apenas uma obrigação social, mas um valor indispensável para uma convivência harmoniosa.

A proposta reforça a importância de formar cidadãos mais conscientes, capazes de reconhecer e valorizar as diferenças. Ao abordar temas atuais e sensíveis, o projeto contribui para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e solidária, onde o respeito seja praticado diariamente e as diferenças sejam vistas como riqueza, e não como motivo de exclusão.

 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Carnaval de Independência que o Tempo Não Apagou - Prof. Ricardo Assis

Carnaval no R.E.C - Arquivo Pessoal Geraldo Teles

Houve um tempo em Independência em que o Carnaval era mais que uma festa, era um acontecimento esperado o ano inteiro, vivido intensamente por quatro dias que pareciam eternos na memória e breves na passagem do tempo. Nas décadas de 70, 80 e 90, a cidade sabia, de verdade, o que era um bom Carnaval — daqueles que reuniam turmas de amigos, famílias inteiras, blocos animados, fantasias criativas, rei, rainha, confete, serpentina e uma ingenuidade que hoje mora apenas na saudade.

Os salões do R.E.C., as noites festivas na Churrascaria Santana e a animação no Juazeiro, próximo à Igreja Matriz, eram os grandes palcos da alegria. Ali, a juventude se encontrava, os adultos reviviam seus tempos de folia e as crianças se encantavam com o brilho das máscaras e o colorido das fantasias. Havia também os blocos de rua, que arrastavam multidões ao som de marchinhas e muita animação, enchendo as vias da cidade de música e gargalhadas.

Naquele tempo, participar de um bloco era quase um ritual de pertencimento. Muitos confeccionavam a própria fantasia, improvisando com criatividade e dedicação. Não havia luxo, mas sobrava imaginação. Cada detalhe era feito com carinho, cada adereço carregava a alegria simples de quem queria apenas brincar o Carnaval. Era tudo movido pela amizade, pela união e pela felicidade genuína de estar junto.

Nos clubes, as bandas davam o tom da festa. Black Banda, Os Comanches e tantos outros grupos que embalaram gerações faziam o salão vibrar. As guitarras, os metais e a batida contagiante transformavam as noites em espetáculos de dança e celebração. A memória pode falhar nos nomes, mas jamais esquecerá a emoção daqueles momentos.

Muitos independencianos cresceram pulando Carnaval nas ruas e nos clubes da cidade, construindo laços que atravessaram décadas. Foram carnavais que marcaram vidas, que criaram histórias de amizade, de amores de verão e de sonhos embalados ao som das marchinhas.

Nada supera os carnavais de antigamente. Eram feitos de sonhos, confetes, serpentinas, máscaras e muito brilho — mas, sobretudo, eram feitos de pessoas. Pessoas que, por quatro dias, deixavam as preocupações de lado e se permitiam viver intensamente a alegria. Tempo bom que não volta mais, mas que permanece vivo na lembrança e no coração de quem teve o privilégio de viver aquela época dourada da folia em Independência.

Porque, naquele tempo, as pessoas eram felizes por quatro dias — e, de certa forma, todos os seus sonhos pareciam se realizar.


Prof. Ricardo Assis  

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Escritor independenciano Flávio Paiva promove roda de leitura com crianças em Angola - Prof. Ricardo Assis

Escritor Flávio Paiva na roda de leitura com crianças em Angola


 

O escritor Flávio Paiva, natural do município de Independência, realizou na manhã no sábado, 7, uma emocionante roda de leitura com crianças em Luanda, capital de Angola, reforçando os laços culturais entre o Brasil e a África por meio da literatura infantil. A atividade aconteceu às 10 horas e reuniu crianças em um ambiente acolhedor, marcado pela escuta atenta, interação e troca de saberes. O evento aconteceu na livraria Kiela.

Durante o encontro, Flávio Paiva apresentou suas obras “Brincadeiras de Cantar” e “Que noite, Tórito”, conduzindo a leitura de forma participativa, estimulando a imaginação, a oralidade e o gosto pelos livros. O evento teve momentos de afeto e proximidade entre o autor e as crianças, que acompanharam a leitura com curiosidade e entusiasmo, manuseando os livros e interagindo com o escritor. A iniciativa destaca a importância da literatura como instrumento de formação, identidade e aproximação cultural, além de projetar o nome de Independência no cenário internacional por meio da educação e da arte.

Flávio Paiva é escritor, educador e mediador de leitura, natural do município de Independência, no sertão cearense, terra que marca profundamente sua trajetória pessoal e literária. É a partir das memórias, vivências e manifestações culturais do interior nordestino que constrói uma obra sensível e comprometida com a formação leitora de crianças, valorizando a oralidade, as brincadeiras populares e a diversidade cultural. Reconhecido por seu trabalho com literatura infantil e ações de incentivo à leitura no Brasil e no exterior, Flávio Paiva leva consigo as raízes de Independência, transformando sua origem em fonte de inspiração e identidade em cada projeto que desenvolve.

 










 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Um lugar chamado Manchete - Flávio Paiva (O Povo)

Toinzinho (1921 – 2015) e Socorro plantando o baobá (imbondeiro) da Manchete. Foto: Flávio Paiva (15/11/2013).

Há lugares que não nos pertencem, mesmo que patrimonialmente sejam nossos. O Sítio Pelo Sinal I, em Independência, que meu pai chamou espirituosamente de Manchete, foi construído por ele e pela minha mãe ao longo de muitas décadas, enquanto ele cuidava de animais, e ela de flores. A casa, belamente vazada para a passagem espontânea dos ventos do sertão dos Inhamuns, foi projetada pelo meu irmão, com seu dom e técnica de criar ambientes agradáveis. 

Bem antes de fazer a viagem de volta em 2015, em uma boa morte aos 94 anos, meu pai Toinzinho me disse que estava guardando peças da sua labuta e da vida cotidiana daquele lugar para que um dia a casa viesse a ser um museu. Depois de uma década mantendo tudo funcionando, doando efetivamente metade da fazenda ao Manezinho e ao Lisboa, trabalhadores que o acompanharam por muitos dos seus últimos anos, e vendendo parte da propriedade para a sustentação da minha mãe, Socorro (88 anos), que desde então passou a morar em Fortaleza, estão criadas as condições para a realização dessa vontade. 

Assumi, com a confiança dos meus irmãos Paulo e Cynara, e com as bençãos da nossa mãe, a condução dos dez hectares rurais restantes, que tangenciam a zona urbana, para, no momento propício, dar sequência a esse sonho de presentear Independência com um parque de cultura e preservação ambiental. Como sou movido por ações de infância e cidadania orgânica, a minha contribuição se dará nesses campos de sentido. Essa é a ideia, considerando a intuição, os sentimentos e os impulsos imaginativos de quem brincou e desempenhou tarefas ali quando era apenas um terreno de plantar e de criar afastado da cidade. Do núcleo constituído pelo casal, não há mais ninguém morando em Independência. O que fundamenta essa decisão, além da visão e da história de conquistas do meu pai como referência na criação de ovinos e caprinos, é a existência de um modo de vida que une simplicidade comportamental e grandeza ontológica. Particularmente, sou muito grato à cidade onde nasci por ter sido educado em casa, na escola e nas ruas com tanto amor que, por onde ando, não deixo de dizer que sou de lá. Sem contar que ali também convivi com parte significativa das personagens das minhas literatura e música. 

 O próprio nome Manchete é um ícone semiótico presente nessa relação. Meu pai deu esse nome à fazenda após ouvir de mim que no jornalismo se chama a atenção para uma notícia importante dando-lhe destaque na capa de um jornal ou revista ou na abertura de um programa, de maneira curta, clara e impactante, para que o público se interesse em ler, ver e ouvir o conteúdo completo. À época, ele ainda tinha uma propriedade no Poço Comprido, no limite de Independência com Tauá, onde mantinha todo o rebanho. Como era pequeno o Sítio Pelo Sinal I, onde retinha o plantel de animais-modelo, ele nominou o lugar de Manchete, pois ali se encontravam as ‘chamadas’ que levavam compradores à criação no interior do município. 

A Manchete não seguiu qualquer padrão de agricultura e pecuária, apenas formou-se a partir da sabedoria prática dos nossos pais e de suas relações. 

Procuro manter esses vínculos com quem dá vida ao lugar. O Manezinho e o Lisboa, que hoje são donos das terras vizinhas desmembradas, mantêm a circulação de animais domésticos intra-propriedades, em uma parceria rural por princípio mutualista. Isso me parece ser uma maneira de respeitar e de renovar evidências do que meu pai conceituou de “Sistema”, um modo de inventar o mundo com satisfação.

 Fontes

 https://www.flaviopaiva.com.br/artigos/um-lugar-chamado-manchete/

 https://mais.opovo.com.br/colunistas/flavio-paiva/2026/01/26/um-lugar-chamado-manchete.html

domingo, 25 de janeiro de 2026

Independência se destaca na história do algodão e acompanha novo programa de revitalização no Ceará - Prof. Ricardo Assis

Carrada de algodão do distrito de Jandrangoeira - Independência.

 

O município de Independência teve papel relevante na produção de algodão no Ceará, especialmente durante o século XIX e grande parte do século XX, período em que a cotonicultura foi a principal cadeia produtiva do Estado. Localizada na região dos Inhamuns, a cidade figurou entre os maiores produtores da cultura, abastecendo outros municípios e a capital Fortaleza.

Na zona rural de Independência, diversas fazendas se dedicavam ao cultivo do algodão, que era concentrado na cooperativa instalada na sede do município para beneficiamento e revenda. A produção movimentava a economia local e garantia emprego e renda para muitas famílias. Caminhões carregados saíam regularmente do município com destino a Fortaleza e a outras cidades cearenses. A importância dessa atividade é simbolizada até hoje na bandeira de Independência, que traz um galho de algodão como representação de sua força econômica no passado.

Atualmente, a produção de algodão volta a ganhar destaque com o lançamento de um programa do Governo do Ceará voltado à revitalização da cultura. A iniciativa prevê, inicialmente, a distribuição gratuita de sementes de algodão em 18 municípios, com a meta de alcançar o plantio em aproximadamente 5 mil hectares. A estimativa é de geração de até 15 mil empregos, considerando uma média de dois a três postos de trabalho por hectare.

Segundo o governo estadual, o objetivo do programa é fortalecer a agricultura, estimular a economia rural e resgatar uma atividade historicamente importante para o Ceará. Para municípios como Independência, a proposta representa a possibilidade de retomada de uma cultura que marcou sua trajetória econômica e social, além de abrir novas perspectivas de desenvolvimento e geração de renda no campo.

Prof. Ricardo Assis

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A Seca dos Três Setes, dor e resistência no Ceará do século XIX - Prof. Ricardo Assis

Seca dos três setes

 

A história do Ceará é marcada por episódios de resistência diante das adversidades impostas pela natureza e pela negligência do poder público. Entre esses episódios, a Seca dos Três Setes (1877–1879) ocupa um lugar central na memória histórica e cultural do povo cearense, não apenas pela intensidade da tragédia, mas pelas profundas transformações sociais que provocou.

Os primeiros sinais do desastre surgiram ainda em 1876. Embora o início daquele ano tenha registrado chuvas nos primeiros meses, o restante foi dominado por uma estiagem severa. De junho a dezembro, o sertão permaneceu sem água. Em 1877, a situação agravou-se: janeiro trouxe apenas neblina e os meses seguintes apresentaram índices insignificantes de chuva. Ao perceberem a perda do inverno, os sertanejos, em março e abril, passaram a abandonar suas terras, iniciando um êxodo em massa rumo ao litoral.

Com a seca, o sertão entrou em colapso. O gado morreu por falta de aguadas, as lavouras desapareceram e as reservas de alimentos se esgotaram rapidamente. A fome tornou-se generalizada a partir do segundo semestre de 1877. Os auxílios governamentais, escassos e desorganizados, não alcançavam as regiões mais afetadas. Em um cenário de absoluta penúria, bens pessoais, animais e até terras passaram a ser trocados por pequenas quantidades de comida, revelando o desespero de quem lutava para sobreviver.

As poucas fontes de água existentes — açudes e poços cavados nos leitos dos rios — secaram completamente. Nem mesmo as famílias consideradas mais abastadas conseguiram resistir. Temendo o isolamento total e a falta de socorro, abandonaram fazendas, casas e rebanhos. O sertão, antes marcado pela vida e pelo trabalho, transformou-se em um espaço de abandono e silêncio, um verdadeiro deserto humano e social.

O governo provincial, despreparado para lidar com a crise, recusou-se inicialmente a enviar recursos ao interior, forçando a concentração populacional nas cidades litorâneas. Fortaleza, Aracati, Sobral, Granja e Camocim receberam milhares de retirantes em poucos meses. Sem infraestrutura para acolher tamanha população, essas cidades viram surgir acampamentos improvisados, pessoas vivendo ao relento e o aumento de doenças, violência e miséria. O que antes eram centros urbanos tranquilos tornou-se palco de sofrimento coletivo.

Em 1878, a esperança de um novo inverno reacendeu brevemente, mas logo foi frustrada. Entre janeiro e junho daquele ano, as chuvas foram insuficientes para reverter a seca. A última precipitação ocorreu em 26 de junho. Após isso, o céu permaneceu limpo e implacável. O abandono do sertão foi quase completo: vilas inteiras ficaram vazias. Somente com a mudança de governo e a atuação de Júlio de Albuquerque Barros (1878–1880) surgiram tentativas mais sistemáticas de socorro às populações remanescentes.

As consequências humanas foram devastadoras. Fazendas com centenas de cabeças de gado desapareceram. Famílias inteiras morreram pelas estradas, vítimas da fome e da sede. Muitas das que chegaram ao litoral estavam tão debilitadas que desfaleciam em praças e calçadas. Paralelamente, intensificou-se a migração forçada para outras províncias, como Amazonas, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Milhares de cearenses foram transportados em navios superlotados, em condições desumanas, ampliando o sofrimento para além das fronteiras do Ceará.

Entre o final de 1878 e meados de 1879, uma grave epidemia de varíola agravou ainda mais a tragédia. O número de mortes alcançou níveis alarmantes, especialmente em Fortaleza, que chegou a abrigar cerca de 180 mil pessoas. A falta de estrutura foi tamanha que muitos corpos permaneceram insepultos. A morte, a doença e o abandono tornaram-se parte do cotidiano da população.

A esperança de que 1879 encerrasse esse ciclo de dor foi novamente frustrada. Embora a seca já não tivesse o mesmo impacto no interior, completamente devastado, o foco voltou-se para os centros urbanos, onde se concentravam os retirantes e os esforços governamentais. A Seca dos Três Setes deixou marcas profundas na organização social, na economia e na cultura cearense.

Mais do que um evento climático, a Seca dos Três Setes é um símbolo da desigualdade, da ausência de políticas públicas eficazes e da força de um povo que, mesmo diante da fome, da doença e do abandono, encontrou meios de resistir. Preservar essa memória é fundamental para compreender o passado e refletir sobre os desafios que ainda persistem no presente.

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Entre a fé e o esquecimento, Santo popular - a memória de Manoel Cazé – Prof. Ricardo Assis

 

Local do túmulo do Manoel Cazé - Santo popular em Independência

Em um local silencioso de Independência, onde hoje o olhar encontra apenas o vazio, existiu um dia um lugar de devoção, respeito e fé popular. Ali repousava Manoel Cazé, também conhecido como Mané Galinha — um andarilho marcado pela vida, pelos problemas psicológicos e pela simplicidade extrema de quem sobrevivia da solidariedade do povo. Caminhava pelas ruas da cidade e pelas casas dos independencianos pedindo comida, carregando no corpo o cansaço e, na alma, um mistério que o tempo transformaria em devoção.

No dia 14 de junho de 1972, Manoel Cazé teve uma morte trágica e sofrida, atropelado por alguém alcoolizado. A brutalidade daquele fim chocou a cidade e marcou para sempre a memória coletiva. A partir dali sua figura humilde passou a ocupar um espaço diferente, deixou de ser apenas um andarilho conhecido para se tornar um santo popular, alguém a quem o povo recorria em oração, esperança e gratidão.

Durante muitos anos, no Dia de Finados, seu túmulo recebeu inúmeras visitas. Velas acesas, flores simples, promessas e agradecimentos revelavam uma fé construída não por decretos oficiais, mas pela experiência viva do povo. Seu túmulo tornou-se um símbolo silencioso da religiosidade popular Independenciana, um lugar onde a dor se transformava em fé e a fé em consolo.

Hoje, porém, esse símbolo não existe mais. O túmulo foi destruído. Não há vestígios, não há marcas, não há sequer uma placa que indique que ali, um dia, repousou alguém tão importante para a memória afetiva da cidade. Em nome do chamado “progresso”, o espaço foi apagado, como se nunca tivesse existido nada naquele terreno — apenas o chão nu e o silêncio.

Com a destruição do túmulo, perde-se mais do que um local físico, perde-se um pedaço da história do povo de Independência. A memória coletiva vai sendo, aos poucos, apagada, mesmo que a fé do povo continue inabalável. Porque a fé não depende de pedra, cimento ou cruz; ela sobrevive na lembrança, no testemunho e na gratidão daqueles que acreditam ter alcançado alguma graça por intercessão do santo popular.

O Túmulo de Manoel Cazé hoje vive apenas na memória do povo e nos relatos de quem acredita ter sido beneficiado por sua intercessão. Vive nas histórias contadas de geração em geração, na saudade e no respeito por uma figura simples que, mesmo em vida, pouco teve, mas que após a morte passou a representar esperança para muitos.

Apagar um túmulo não apaga uma história. Enquanto houver quem lembre, quem conte e quem creia, Manoel Cazé continuará existindo — não mais naquele terreno vazio, mas no coração e na fé do povo independenciano.

Prof. Ricardo Assis

 


domingo, 11 de janeiro de 2026

Aula de campo da turma de História de Independência em Crateús (2007) - Prof. Ricardo Assis

Turma de História de Independência (2007), aula de Campo.

 

No ano de 2007, a Turma de História de Independência viveu uma experiência que ultrapassou os limites da sala de aula e ficou marcada na memória de todos, uma aula de campo junto aos indígenas Tabajaras, no município de Crateús. A visita representou muito mais do que uma atividade escolar — foi um encontro direto com a história viva, com a cultura, os saberes e as tradições de um povo originário que ajudou a construir a identidade do nosso território.

Embora o tempo tenha apagado alguns detalhes — como o nome da disciplina específica ou de quem conduziu aquela atividade —, o que permanece vivo é o significado daquela aula. O contato direto com os Tabajaras permitiu aos alunos compreenderem a História para além dos livros, enxergando-a como algo pulsante, presente no cotidiano, nas práticas culturais, nos rituais, nas expressões e na resistência indígena.

A aula de campo foi um retrato fiel desse momento especial para os alunos, comunidade indígena, crianças, adultos e lideranças reunidos em um espaço simples, mas carregado de simbolismo. Um verdadeiro intercâmbio de conhecimentos, respeito e aprendizado mútuo.

Hoje, passados quase vinte anos, é motivo de orgulho saber que a maioria daquela turma se tornou excelentes professores de História. Educadores comprometidos com o ensino crítico, com a valorização da memória, da cultura local e, sobretudo, com a formação de novas gerações conscientes de sua identidade e de seu papel na sociedade.

Aquela aula de campo foi, sem dúvida, uma semente. Uma prova de que experiências vividas fora da sala de aula têm o poder de transformar trajetórias, despertar vocações e reafirmar que ensinar História é, acima de tudo, conectar pessoas, tempos e realidades. Uma excelente aula de campo — daquelas que o tempo não apaga.

Prof. Ricardo Assis

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

31 de dezembro de 2015: o dia em que a água venceu a seca em Independência – Prof. Ricardo Assis

Governado Camilo Santana na localidade do Jaburu



No apagar das luzes de 2015, quando o calendário se preparava para virar mais um ano, o município de Independência viveu um dos momentos mais marcantes de sua história recente. No dia 31 de dezembro de 2015, último dia do ano, a cidade recebeu a visita do então governador do Ceará, Camilo Santana, para a inauguração da Adutora de Montagem Rápida, uma obra aguardada com ansiedade por toda a população.

À época, Independência atravessava um período crítico de crise hídrica. A escassez de água afetava diretamente o cotidiano das famílias, o funcionamento dos serviços públicos e a economia local. Em meio às dificuldades impostas pela seca prolongada, a chegada da adutora representou mais do que uma obra de infraestrutura, simbolizou esperança, segurança e dignidade para os independencianos.


Inauguração foi realizada ao lado do Mercado Público

A adutora, com 27,6 quilômetros de extensão, passou a levar água do açude Jaburu II até a sede urbana do município, garantindo o abastecimento regular da cidade. O investimento, na ordem de R$ 7,4 milhões, foi fundamental para enfrentar os efeitos da estiagem e assegurar um direito básico à população: o acesso à água.

Naquele período, o município era administrado pelo prefeito Valterlin Coutinho, que acompanhou a inauguração ao lado de autoridades estaduais, lideranças locais e da comunidade. O ato solene marcou o encerramento de um ano difícil, mas também abriu caminho para um novo ciclo, com mais tranquilidade e perspectivas de desenvolvimento.

Com o passar do tempo, o 31 de dezembro de 2015 consolidou-se como uma data histórica para Independência. Um dia que entrou para a memória coletiva como o momento em que o poder público respondeu a um dos maiores desafios do sertão, a escassez d’água. Mais do que inaugurar uma adutora, aquele dia selou um capítulo importante da história do município, provando que, mesmo em meio às adversidades, é possível transformar realidades e garantir um futuro melhor para a população.

  

Governador Camilo Santana comentou em sua rede social

Prof. Ricardo Assis