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domingo, 25 de janeiro de 2026

Independência se destaca na história do algodão e acompanha novo programa de revitalização no Ceará - Prof. Ricardo Assis

Carrada de algodão do distrito de Jandrangoeira - Independência.

 

O município de Independência teve papel relevante na produção de algodão no Ceará, especialmente durante o século XIX e grande parte do século XX, período em que a cotonicultura foi a principal cadeia produtiva do Estado. Localizada na região dos Inhamuns, a cidade figurou entre os maiores produtores da cultura, abastecendo outros municípios e a capital Fortaleza.

Na zona rural de Independência, diversas fazendas se dedicavam ao cultivo do algodão, que era concentrado na cooperativa instalada na sede do município para beneficiamento e revenda. A produção movimentava a economia local e garantia emprego e renda para muitas famílias. Caminhões carregados saíam regularmente do município com destino a Fortaleza e a outras cidades cearenses. A importância dessa atividade é simbolizada até hoje na bandeira de Independência, que traz um galho de algodão como representação de sua força econômica no passado.

Atualmente, a produção de algodão volta a ganhar destaque com o lançamento de um programa do Governo do Ceará voltado à revitalização da cultura. A iniciativa prevê, inicialmente, a distribuição gratuita de sementes de algodão em 18 municípios, com a meta de alcançar o plantio em aproximadamente 5 mil hectares. A estimativa é de geração de até 15 mil empregos, considerando uma média de dois a três postos de trabalho por hectare.

Segundo o governo estadual, o objetivo do programa é fortalecer a agricultura, estimular a economia rural e resgatar uma atividade historicamente importante para o Ceará. Para municípios como Independência, a proposta representa a possibilidade de retomada de uma cultura que marcou sua trajetória econômica e social, além de abrir novas perspectivas de desenvolvimento e geração de renda no campo.

Prof. Ricardo Assis

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A Seca dos Três Setes, dor e resistência no Ceará do século XIX - Prof. Ricardo Assis

Seca dos três setes

 

A história do Ceará é marcada por episódios de resistência diante das adversidades impostas pela natureza e pela negligência do poder público. Entre esses episódios, a Seca dos Três Setes (1877–1879) ocupa um lugar central na memória histórica e cultural do povo cearense, não apenas pela intensidade da tragédia, mas pelas profundas transformações sociais que provocou.

Os primeiros sinais do desastre surgiram ainda em 1876. Embora o início daquele ano tenha registrado chuvas nos primeiros meses, o restante foi dominado por uma estiagem severa. De junho a dezembro, o sertão permaneceu sem água. Em 1877, a situação agravou-se: janeiro trouxe apenas neblina e os meses seguintes apresentaram índices insignificantes de chuva. Ao perceberem a perda do inverno, os sertanejos, em março e abril, passaram a abandonar suas terras, iniciando um êxodo em massa rumo ao litoral.

Com a seca, o sertão entrou em colapso. O gado morreu por falta de aguadas, as lavouras desapareceram e as reservas de alimentos se esgotaram rapidamente. A fome tornou-se generalizada a partir do segundo semestre de 1877. Os auxílios governamentais, escassos e desorganizados, não alcançavam as regiões mais afetadas. Em um cenário de absoluta penúria, bens pessoais, animais e até terras passaram a ser trocados por pequenas quantidades de comida, revelando o desespero de quem lutava para sobreviver.

As poucas fontes de água existentes — açudes e poços cavados nos leitos dos rios — secaram completamente. Nem mesmo as famílias consideradas mais abastadas conseguiram resistir. Temendo o isolamento total e a falta de socorro, abandonaram fazendas, casas e rebanhos. O sertão, antes marcado pela vida e pelo trabalho, transformou-se em um espaço de abandono e silêncio, um verdadeiro deserto humano e social.

O governo provincial, despreparado para lidar com a crise, recusou-se inicialmente a enviar recursos ao interior, forçando a concentração populacional nas cidades litorâneas. Fortaleza, Aracati, Sobral, Granja e Camocim receberam milhares de retirantes em poucos meses. Sem infraestrutura para acolher tamanha população, essas cidades viram surgir acampamentos improvisados, pessoas vivendo ao relento e o aumento de doenças, violência e miséria. O que antes eram centros urbanos tranquilos tornou-se palco de sofrimento coletivo.

Em 1878, a esperança de um novo inverno reacendeu brevemente, mas logo foi frustrada. Entre janeiro e junho daquele ano, as chuvas foram insuficientes para reverter a seca. A última precipitação ocorreu em 26 de junho. Após isso, o céu permaneceu limpo e implacável. O abandono do sertão foi quase completo: vilas inteiras ficaram vazias. Somente com a mudança de governo e a atuação de Júlio de Albuquerque Barros (1878–1880) surgiram tentativas mais sistemáticas de socorro às populações remanescentes.

As consequências humanas foram devastadoras. Fazendas com centenas de cabeças de gado desapareceram. Famílias inteiras morreram pelas estradas, vítimas da fome e da sede. Muitas das que chegaram ao litoral estavam tão debilitadas que desfaleciam em praças e calçadas. Paralelamente, intensificou-se a migração forçada para outras províncias, como Amazonas, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Milhares de cearenses foram transportados em navios superlotados, em condições desumanas, ampliando o sofrimento para além das fronteiras do Ceará.

Entre o final de 1878 e meados de 1879, uma grave epidemia de varíola agravou ainda mais a tragédia. O número de mortes alcançou níveis alarmantes, especialmente em Fortaleza, que chegou a abrigar cerca de 180 mil pessoas. A falta de estrutura foi tamanha que muitos corpos permaneceram insepultos. A morte, a doença e o abandono tornaram-se parte do cotidiano da população.

A esperança de que 1879 encerrasse esse ciclo de dor foi novamente frustrada. Embora a seca já não tivesse o mesmo impacto no interior, completamente devastado, o foco voltou-se para os centros urbanos, onde se concentravam os retirantes e os esforços governamentais. A Seca dos Três Setes deixou marcas profundas na organização social, na economia e na cultura cearense.

Mais do que um evento climático, a Seca dos Três Setes é um símbolo da desigualdade, da ausência de políticas públicas eficazes e da força de um povo que, mesmo diante da fome, da doença e do abandono, encontrou meios de resistir. Preservar essa memória é fundamental para compreender o passado e refletir sobre os desafios que ainda persistem no presente.

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Entre a fé e o esquecimento, Santo popular - a memória de Manoel Cazé – Prof. Ricardo Assis

 

Local do túmulo do Manoel Cazé - Santo popular em Independência

Em um local silencioso de Independência, onde hoje o olhar encontra apenas o vazio, existiu um dia um lugar de devoção, respeito e fé popular. Ali repousava Manoel Cazé, também conhecido como Mané Galinha — um andarilho marcado pela vida, pelos problemas psicológicos e pela simplicidade extrema de quem sobrevivia da solidariedade do povo. Caminhava pelas ruas da cidade e pelas casas dos independencianos pedindo comida, carregando no corpo o cansaço e, na alma, um mistério que o tempo transformaria em devoção.

No dia 14 de junho de 1972, Manoel Cazé teve uma morte trágica e sofrida, atropelado por alguém alcoolizado. A brutalidade daquele fim chocou a cidade e marcou para sempre a memória coletiva. A partir dali sua figura humilde passou a ocupar um espaço diferente, deixou de ser apenas um andarilho conhecido para se tornar um santo popular, alguém a quem o povo recorria em oração, esperança e gratidão.

Durante muitos anos, no Dia de Finados, seu túmulo recebeu inúmeras visitas. Velas acesas, flores simples, promessas e agradecimentos revelavam uma fé construída não por decretos oficiais, mas pela experiência viva do povo. Seu túmulo tornou-se um símbolo silencioso da religiosidade popular Independenciana, um lugar onde a dor se transformava em fé e a fé em consolo.

Hoje, porém, esse símbolo não existe mais. O túmulo foi destruído. Não há vestígios, não há marcas, não há sequer uma placa que indique que ali, um dia, repousou alguém tão importante para a memória afetiva da cidade. Em nome do chamado “progresso”, o espaço foi apagado, como se nunca tivesse existido nada naquele terreno — apenas o chão nu e o silêncio.

Com a destruição do túmulo, perde-se mais do que um local físico, perde-se um pedaço da história do povo de Independência. A memória coletiva vai sendo, aos poucos, apagada, mesmo que a fé do povo continue inabalável. Porque a fé não depende de pedra, cimento ou cruz; ela sobrevive na lembrança, no testemunho e na gratidão daqueles que acreditam ter alcançado alguma graça por intercessão do santo popular.

O Túmulo de Manoel Cazé hoje vive apenas na memória do povo e nos relatos de quem acredita ter sido beneficiado por sua intercessão. Vive nas histórias contadas de geração em geração, na saudade e no respeito por uma figura simples que, mesmo em vida, pouco teve, mas que após a morte passou a representar esperança para muitos.

Apagar um túmulo não apaga uma história. Enquanto houver quem lembre, quem conte e quem creia, Manoel Cazé continuará existindo — não mais naquele terreno vazio, mas no coração e na fé do povo independenciano.

Prof. Ricardo Assis

 


domingo, 11 de janeiro de 2026

Aula de campo da turma de História de Independência em Crateús (2007) - Prof. Ricardo Assis

Turma de História de Independência (2007), aula de Campo.

 

No ano de 2007, a Turma de História de Independência viveu uma experiência que ultrapassou os limites da sala de aula e ficou marcada na memória de todos, uma aula de campo junto aos indígenas Tabajaras, no município de Crateús. A visita representou muito mais do que uma atividade escolar — foi um encontro direto com a história viva, com a cultura, os saberes e as tradições de um povo originário que ajudou a construir a identidade do nosso território.

Embora o tempo tenha apagado alguns detalhes — como o nome da disciplina específica ou de quem conduziu aquela atividade —, o que permanece vivo é o significado daquela aula. O contato direto com os Tabajaras permitiu aos alunos compreenderem a História para além dos livros, enxergando-a como algo pulsante, presente no cotidiano, nas práticas culturais, nos rituais, nas expressões e na resistência indígena.

A aula de campo foi um retrato fiel desse momento especial para os alunos, comunidade indígena, crianças, adultos e lideranças reunidos em um espaço simples, mas carregado de simbolismo. Um verdadeiro intercâmbio de conhecimentos, respeito e aprendizado mútuo.

Hoje, passados quase vinte anos, é motivo de orgulho saber que a maioria daquela turma se tornou excelentes professores de História. Educadores comprometidos com o ensino crítico, com a valorização da memória, da cultura local e, sobretudo, com a formação de novas gerações conscientes de sua identidade e de seu papel na sociedade.

Aquela aula de campo foi, sem dúvida, uma semente. Uma prova de que experiências vividas fora da sala de aula têm o poder de transformar trajetórias, despertar vocações e reafirmar que ensinar História é, acima de tudo, conectar pessoas, tempos e realidades. Uma excelente aula de campo — daquelas que o tempo não apaga.

Prof. Ricardo Assis

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

31 de dezembro de 2015: o dia em que a água venceu a seca em Independência – Prof. Ricardo Assis

Governado Camilo Santana na localidade do Jaburu



No apagar das luzes de 2015, quando o calendário se preparava para virar mais um ano, o município de Independência viveu um dos momentos mais marcantes de sua história recente. No dia 31 de dezembro de 2015, último dia do ano, a cidade recebeu a visita do então governador do Ceará, Camilo Santana, para a inauguração da Adutora de Montagem Rápida, uma obra aguardada com ansiedade por toda a população.

À época, Independência atravessava um período crítico de crise hídrica. A escassez de água afetava diretamente o cotidiano das famílias, o funcionamento dos serviços públicos e a economia local. Em meio às dificuldades impostas pela seca prolongada, a chegada da adutora representou mais do que uma obra de infraestrutura, simbolizou esperança, segurança e dignidade para os independencianos.


Inauguração foi realizada ao lado do Mercado Público

A adutora, com 27,6 quilômetros de extensão, passou a levar água do açude Jaburu II até a sede urbana do município, garantindo o abastecimento regular da cidade. O investimento, na ordem de R$ 7,4 milhões, foi fundamental para enfrentar os efeitos da estiagem e assegurar um direito básico à população: o acesso à água.

Naquele período, o município era administrado pelo prefeito Valterlin Coutinho, que acompanhou a inauguração ao lado de autoridades estaduais, lideranças locais e da comunidade. O ato solene marcou o encerramento de um ano difícil, mas também abriu caminho para um novo ciclo, com mais tranquilidade e perspectivas de desenvolvimento.

Com o passar do tempo, o 31 de dezembro de 2015 consolidou-se como uma data histórica para Independência. Um dia que entrou para a memória coletiva como o momento em que o poder público respondeu a um dos maiores desafios do sertão, a escassez d’água. Mais do que inaugurar uma adutora, aquele dia selou um capítulo importante da história do município, provando que, mesmo em meio às adversidades, é possível transformar realidades e garantir um futuro melhor para a população.

  

Governador Camilo Santana comentou em sua rede social

Prof. Ricardo Assis